quarta-feira, 26 de novembro de 2014

TOP 7 -- HISTÓRIAS DE VILÕES




Foi com Alan Moore em Watchmen que eu comecei a valorizar os personagens pela dualidade e humanidade que eles possuem. Atos bons e ruins simultâneos, tal como a maioria de nós é na vida real, é desenvolvendo a capacidade de fazer o leitor se questionar quando lê uma história sobre quem de fato possa estar certo ou errado, ao invés de entregar tudo didaticamente, que um escritor faz obras memoráveis para serem sempre discutidas. Abaixo eu separei seis dos melhores contos para mim envolvendo vilões, as motivações que cada qual tem, servindo de um contraponto ao leitor que em boa parte das vezes possa ter uma visão unidimensional deles.
Como o nome já diz, eles são vilões, a meu ver o que separa ele das contrapartes foi à maneira fraca e por vezes irracional que lidou com a dor, ou inteligente, vai depender do seu ponto de vista...



7° DOUTOR DESTINO – Os Livros de Destino – (Por Ed Brubaker e Pablo Raimondi)


“O único movimento do campo de batalha naquela manhã foi meu. Os homens do rei me foram entregues pelo soldado que libertei na noite anterior. E quando caminhei até eles, eles se afastaram de mim, abrindo caminho para o seu novo governante passar.”

Fazia muito tempo que eu queria ler essa mini-série, quando a encontrei na banca há umas semanas atrás, comprei sem titubear, e vou confessar: ficou abaixo das minhas expectativas, não chega a ser uma história ruim, mas fica claro o quanto deixa a desejar, primeiramente pela figura deslocada do Destino como narrador nas páginas, e segundo pelo roteiro passar muito rápido por fases da vida de Victor, sem maior aprofundamento, Ed Brubaker tentando não se estender muito e fazer apenas um básico para não passar em branco... Mas a história ainda tem bons pontos, como quando ele retorna a Latvéria para confrontar o ditador, se a HQ fosse centrada só nesse conflito, ela teria uma nota alta.
Vale ler para se ter uma ideia melhor do que significa “magia e ciência juntas” praticadas pelo Doutor Destino, bem como vislumbrar que tipo de derrota para um demônio pode-se ter um rei virtualmente invencível. Doutor Destino sempre foi um dos melhores vilões da Marvel para mim, justamente por ser um dos mais poderosos intelectos dentro do universo Marvel, com poderes muitas vezes que beiram os de um deus, conseguindo enfrentar tranquilamente o Homem de Ferro em tecnologia, Thor em poder, ou Hulk na força bruta. Raramente eu vi o Doutor Destino ser bem trabalhado em uma HQ, com a inteligência e poder que ele tem, ele no mínimo poderia ter dominado uma boa parte do mundo como dominou a Latvéria, assim como Magneto já poderia ter conseguido exterminar ao menos metade da raça humana...

Nota: 7.2





6° Lugar: ESPANTALHO – Arcos entre as edições #10 á #15 do título Cavaleiro das Trevas (Novos 52) – (Por Gregg Hurwitz e David Finch)


 
“Viu? É por isso que eu entendo você, Batman. Você não tem medo de nada, exceto do próprio medo. É por isso que você é levado a se provar vez após outra, assim como eu. Só que você não pode, porque eu dominei o medo, e você ainda foge dele.”


Esse título não começou bem. As histórias estavam fracas, os Novos 52 estavam sendo criticados constantemente por leitores fieis, e Paul Jenkins fazendo histórias inferiores onde o Batman encontrava vários e vários vilões servindo de “peões” para uma aparição ridícula do Bane no final, não ajudava em nada. Porém, houve algo de bom nisso tudo, um personagem que apareceu rapidamente, que ganhou uma forma impactante pelos traços detalhados de David Finch: O Espantalho. Por mais sorte ainda, um roteirista que eu vim a conhecer nesse título, assumiu o controle da situação o roteirista Gregg Hurwitz, que já começou o trabalho decidido a mostrar um Espantalho potencialmente trabalhado, cruel ao mesmo tempo que frágil.
Diferente dos outros dessa lista, esse material não é uma mini-série sobre o personagem, mas Hurwitz escreveu tão bem o Espantalho, que resolvi colocar aqui. Pessoalmente eu considero o Espantalho uma contraparte do Batman ao nível do Coringa, assim como considero um dos poucos defeitos do Batman Begins ter sido não ter dado um papel maior a esse personagem.
O resultado é uma terapia que Espantalho faz com Batman, como forma de passar adiante toda a desgraça que o pai lhe fez afirmando estar lhe passando uma benção. Batman e Espantalho entram juntos em uma jornada de autoafirmação em cima dos símbolos que representam, colocando em xeque a coragem inabalável de Batman. Um conto sobre desespero, medo e persuasão sádica.


Nota: 7.4








5° Lugar: BANE - A Vingança de Bane 1 e 2 – (Por Chuck Dixon e Graham Nolan)


“Eu já nasci condenado, o mundo é a minha prisão, eu devo ser dono dela, ou então ser liberto pela morte.”


Vou se sincero, na visão que eu tenho do universo do Batman, eu acho bem mais crível o Bane ser um líder da Liga dos Assassinos (apago propositalmente a Tália do filme da minha memória), golpista militar e suposto “libertador da opressão” do que a versão original dos quadrinhos, onde ele se utiliza de veneno para ficar mais forte e inteligente, não que a história dele seja ruim, mas é o tipo de personagem que combina mais com o Homem-Aranha ou Wolverine, que possuem inimigos mais fantásticos.
Mesmo preferindo a versão cinematográfica, a história do Bane é notável. Ele é uma espécie de Batman ainda mais calejado pela vida, com a mãe condenada a perpétua enquanto ainda estava na barriga dela, Bane já nasceu na prisão e lá ficou até sua vida adulta. Enquanto Bruce Wayne foi destruído pelo assassinato dos pais, mas ainda pôde se recompor e opcionar entre se dedicar ao autoaprimoramento compulsivo usando suas riquezas, Bane teve que desde que criança matar e assumir uma postura alfa dentro do cárcere, ou ser morto por mais fortes. Se os escritores tivessem investido mais no lado brutal e menos na ficção clichê de “adquirir poderes com experimentos”, estaríamos diante de uma das mais inteligentes histórias da DC das ultimas décadas.
A primeira parte “A Vingança de Bane” é mais interessante, a segunda (Redenção) termina com um final brochante onde Bane encontra uma desculpa de covarde para não conceder uma revanche ao Batman. Por mais que tenham transformado o Bane em um capanga demente com o passar dos anos por incompetência dos roteiristas, imagens como ele massacrando o Batman dentro da própria mansão até a caverna e posteriormente jogando Batman de um prédio no meio da rua pras pessoas enquanto gritava ser o novo dono da cidade sempre vão ficar na memória dos leitores.
Fica aqui um pedido que a dupla Snyder / Capullo introduza em algum arco futuro o Bane da maneira que ele merece, afinal eles são a melhor dupla da atualidade para mim. Confio no trabalho deles.


Nota: 7.5





4° Lugar: LOKI (Por Robert Rodi e Esad Ribic)


“Vergonha? A palavra não tem significado para mim. Prenda um pedaço de carne ante um cão faminto. Após longas horas de suplicas, esse cão atacará você, pegará a carne e teu braço junto, isso deve ser vergonha? Ou algo próximo de vitória?”

 Loki é uma obra de arte a começar pelas ilustrações impecáveis de Esad Ribic, e funciona magistralmente como uma real reflexão de Loki sobre como ele enxerga Thor, aquele que ele acredita ser seu maior inimigo de todos. Após uma derradeira derrota, Loki finalmente realiza seu plano maior sendo Rei de Asgard, ao mesmo tempo que tem abaixo de seus pés como prisioneiros, Thor, Odin, Lady Sif entre outros. O que parece ser sua maior realização, torna a fase mais vazia de sua vida, Loki vai descobrindo na prática o sentido da máxima “pesada é a cabeça que ostenta a coroa”, ao se ver cercado pelos mais diversos inimigos que o pressionam, desde reinos vizinhos que o ajudaram no seu golpe á própria Hela (deusa da morte nórdica) que reclama a alma de Thor, exigindo que Loki o assassine publicamente.
Vejo muita gente reclamar que o final dessa obra é ruim, o que eu discordo. Loki está longe de ser uma pobre vítima, assim como Thor para mim está longe de ser um nobre herói incorruptível. Tudo se trata no final das decisões que são tomadas com os poderes que se tem, e mais ainda da inteligência emocional em usá-los, é justamente isso que faz com que Loki muitas vezes pense pequeno e deixe a força física sobrepujá-lo.


Nota: 8.8

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3° Lugar: CORINGA (Por Brian Azzarrello e Lee Bermejo)


Sempre vai existir um Coringa. Porque não há cura para ele. Nenhuma cura, só o um Batman.”  

O Coringa? Louco? Não mais segundo os especialistas do Asilo Arkham nesse conto, tanto é que o começo desse quadrinho já é com a irônica cena do Coringa saindo tranquilamente do Asilo depois de receber alta. Brian Azzarrello tem um ótimo artifício de criar personagens coadjuvantes muito bem construídos para as histórias que escreve, e aqui ele faz isso quase tão bem quanto fez em Hellblazer com o agente Turro.
Um bandido com o nome de Jack Frost espera receoso pelo Coringa, e logo o tira do local. O que se segue das próximas páginas, é uma história de máfia sobre reconquista de território protagonizada pelo Coringa, fazendo o leitor ter um vislumbre do outro lado do muro em Gotham como não era feito desde Piada Mortal e Ano Um: uma cidade cruel em uma guerra silenciosa de perversos contra mais pervesos, onde alguém honrado é o primeiro a ser atacado por todos os lado (A série de TV Gotham também está sabendo trabalhar isso).
Sem falar de Lee Bermejo, que consegue rivalizar em qualidade com o próprio Brian Bolland, ao mesmo tempo em que consegue aperfeiçoar o traço com o passar dos anos de uma maneira sobrehumana. Coringa é para mim, a melhor história do Coringa até agora, eu ainda considero ela melhor que Piada Mortal.


Nota: 9.4



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2° Lugar: MAGNETO – Testamento – (Por Greg Pak e Carmine Di Giandomenico)


“Max, você é especial, tem um dom, é uma imensa promessa. Mas você precisa ser cuidadoso. Os japoneses dizem que os pregos que se sobrassem são martelados, está me entendendo?”


Testamento é uma história tão bem escrita, que eu considero ela o filme do Magneto que eu sempre sonhei e nunca existiu (pois tinham que fazer o X-Men Primeira Classe, que nem é essas coisas todas...) Vou logo confessar: quem eu sempre achei o mais interessante em todo o universo X-Men sempre foi o Magneto, eu achava apenas menções do passado dele nos campos de concentração, mas nunca algo concreto.
Antes do frio e irredutível Magneto, havia uma criança, franzina, talentosa, pressionada contra o muro, que teve que sobreviver ao inferno que o nazismo trouxe, o privando de sua família, amigos, aspirações ou liberdade. Testamento é um conto objetivo onde não há espaço para o heroísmo, onde cada escolha feita trará uma punição diferente a Max, aqui temos mais um caso como o de Bane / Batman, porém nesse, o maior triunfo que Max consegue é se manter-se vivo frente a tortura incurável que passou. Toda história acentua a vingança poética que o poder que Max trará um dia, que será controlar qualquer metal.
Tirando alguns extremismos, Magneto está querendo se vingar do que fizeram com ele, exterminara, tudo o que ele amava, e agora ele quer destruir de volta, deixando apenas os mutantes, uma raça que ele considera superior, é muito fácil chegar dizendo “Ah, mas ele é um nazista também, as doutrinas dele de supremacia racial são idênticas”, eu mesmo se tivesse vivido tudo o que ele passou aqui nessa história, dificilmente adotaria uma abordagem pacifista como o Professor Xavier, abordagem a qual, que mesmo visando uma convivência tranquila, em muitos casos soa permissiva e abre espaço para o inimigo.


Nota: 9.6





1° LEX LUTHOR – O Homem de Aço – (Por Brian Azzarrello e Lee Bermejo)


“Como um castelo de cartas... Contra fatos, não há argumentos. Devido a fatores químicos e ópticos, a grama aparenta ser mais verde, há não ser que se tenha cegueira a cores. Levando isso em conta... Não será a percepção mais real que a própria realidade? Não posso mudar a cor da grama, mas: e mudar a maneira com que ela é percebida? Creio que posso.”


O Super-Homem é um exemplo para as pessoas, tanto é que seu maior poder é a sua humanidade benévola, mais reforçada que a da maioria das pessoas do planeta. Mas e se tudo for uma farsa? E se um dia pesar a dura verdade que por mais que o Super-Homem se proclame um homem, ele não é um de verdade, e sim um alienígenas ultrapoderoso com potencial para dominar todo o mundo em questão de dias ou horas? E caso ele resolva fazer isso, quem poderia impedi-lo? É acertando o leitor com força com toda a repressão possível a qualquer ingenuidade e esperança de que tudo sempre vai ficar bom, que Lex Luthor conduz essa história, quebrando totalmente a imagem passada em tempos anteriores, de Luthor apenas ser um gordo rico, arrogante e invejoso, Luthor é mais do que isso aqui, é além de um gênio, um filósofo, político, cientista e gangster.
Lex Luthor argumenta tão bem em seus recordatórios ao decorrer da trama, que boa parte dos leitores chega a apoiar a causa dele “por um mundo melhor”, ao mesmo tempo em que admira a postura firme com que enfrenta os negócios do dia a dia observando engrenagem por engrenagem ao invés de ficar no topo apenas amaldiçoando o Super-Homem de sua janela (sim, ele faz isso aqui também, mas não de uma maneira ridícula como mostrado nos filmes com o Christopher Reeve). Aqui apesar de Luthor jogar adversários (incluindo o próprio Batman, que leva aqui uma justa surra) contra o Super-Homem como movimentos enxadrísticos para testar suas táticas, ao mesmo tempo que tenta eliminar e compreender o mito que o Super-Homem venha representar.


Nota: 10.0



Qual são as melhores histórias de vilão que você já leu?

Quais recomenda?

Comente.



sexta-feira, 21 de novembro de 2014

XADREZ E O CORTE FINAL...




 Eu sempre acredito no caráter instrutivo que o xadrez tem, para mim ele não é um mero jogo de tabuleiro como ludo, dominó, ou outros, é um instrumento demonstrativo em que nos podemos ensinar desde politica, à existencialismo e principalmente um controle maior de escolhas mentalmente fortes e calculadas, que com o passar do tempo vai se ampliando para a nossa vida. É porque tento todos os dias jogar com as crianças lá no meu trabalho, aprender e passar alguma coisa a elas, meu tempo pode ser desperdiçado se eu for numa festa, passar o dia no Facebook, ficar de conversinha em rodinha no trabalho como se tivesse em um bar (o que sempre evito, pode me chamar “do contra” se quiser), mas nunca, treinando xadrez.
Não se prolongando muito, fiz esse texto mais direcionado aos alunos do meu trabalho, e para os que quiserem, eu deixo aqui alguns materiais interessantes que eu encontrei nas ultimas semanas, relacionados ao xadrez:


CAVALEIROS DO SUL DO BRONX



Filme que eu assisti a primeira vez na Globo de madrugada a uns anos atrás, não é um filme que mude a sua vida, que possua uma direção que marque na história do cinema, mas é um filme que afirma boa parte do que eu disse no texto acima, mostrando o aspecto educacional do xadrez, destaque para a cena em que um dos alunos vai visitar o pai na prisão, e esse lhe ensina uma lição sobre raiva. Bem interessante. Para ter acesso a ele, clique nesse link:

 http://xadrezpirata.blogspot.com.br/2012/05/filme-os-cavaleiros-do-sul-do-bronx.html ,ele te levará ao blog parceiro onde o link para download está hospedado.

Nota: 5.3



BOBBY FISCHER – CURSO DE XADREZ

 

Esse vídeo é excelente. Mostra em pouco mais de 20 minutos uma pequena e impressionante parcela da genialidade de Fischer no xadrez, antes desse vídeo, o único jogo que eu havia assistido do Fischer foi a rodada final dele contra Bóris Spassky, outro excelente jogo. Atente nas jogadas improváveis que ele fazia que derrubava mestres de xadrez. Vale a pena se inscrever no canal desse cara.


Nota: 8.4


BOBBY FISCHER CONTRA O MUNDO

“Eu não me considero um gênio do xadrez, eu me considero um gênio que também joga xadrez.”

“A maioria de nós pensa dentro de limites. Mas ocasionalmente, um pensa “fora da caixa”. Essas são as pessoas que fazem novas descobertas, que são os criativos, porém ocasionalmente é difícil voltar para “dentro da caixa”. Essa afirmação acerca de Bobby Fischer é feita nos 86 minutos de projeção pelo Dr. Kari Stefansson, um neurologista que aparece nesse documentário, indignado com o Bobby Fischer já velho e supostamente enlouquecido, que passava horas e horas falando sobre “Judeus traidores, EUA ameaçadoramente imperialistas e holocausto nuclear”. Assisti esse documentário com altas expectativas de conhecer mais sobre esse que é considerado o “Muhammad Ali do xadrez”, e acabei surpreendido por uma complexidade ainda maior do que imaginei ser a figura de Bobby Fischer, afinal: o que leva alguém a dedicar toda a vida para se tornar o melhor enxadrista do mundo, para desistir de tudo logo após se tornar o campeão mundial?
O documentário nos faz questionar, se o desenho de Fischer era superestimado ou realmente se tratava da maior mente que o mundo do xadrez já conheceu, porque diferente de boa parte dos enxadristas, Fischer tinha um nível de solidão e egoísmo ainda superior a essa classe, não tinha relacionamentos amorosos, era brigado com a mãe (uma ativista comunista que o documentário sugere ter personalidade espinhenta como ele), além de ser um bastardo, visitado raramente por um homem amigo de sua mãe, que só quando morreu, sua mãe revelou que se tratava do pai verdadeiro dele, ele tinha 9 anos...
O comportamento mostrado durante a vida dele leva a entender duas coisas: Ou ele era um egocêntrico cruel com complexo de ser um deus, ou a visão que ele tinha da existência em si era tão ampla como sua visão ao jogar xadrez, ou quem sabe, para tormento maior, ele fosse essas duas características demasiadamente combinadas, um Ozymandias da vida real, que diferente do presente no quadrinho Watchmen, não possuiu frieza e força de vontade para lidar com sua inteligência e percepção sobrehumana da metafísica. Por isso que eu penso que apenas defini-lo de “louco”, é subestimar a nossa própria capacidade de raciocínio, apesar é claro, de atitudes repugnantes dele, como atacar psicologicamente Bóris Spassky com seus caprichos dignos de uma criança de 5 anos, com exigências totalmente irritantes sobre tudo, se não fosse a vontade de subjugar Bob Fischer, vindo da parte do da época campeão mundial Bóris, provavelmente se optarmos pela lógica, Fischer não teria ido tão longe, não teria sido o campeão mundial e seu exílio teria sido mais prematuro, ou mesmo ele tivesse ressurgido e aprendido uma lição de humildade que nunca aprendeu, nunca saberemos.


Algumas mentes humanas são tão impares, que se focam em uma espécie de linha reta inabalável a um objetivo, esse enorme poder mental e físico para se atingir isso, é em contrapartida, como no caso do Fischer, sua maior fraqueza. Depois da vitória, ele estava pelo menos na mente dele, invencível, olhou para atrás e percebeu que poderia haver outras coisas na vida, mas não para ele, a única visão lógica foi o beco sem saída, a montanha foi escalada e não há mais nada para subir, diferente de Kasparov que enxerga os desafios como infinitos, Fischer foi afogado pelo vazio emocional que só conseguia ser combatido com o xadrez. Pink Floyd tem uma música que define bem tudo isso.



Nota: 10.0




domingo, 16 de novembro de 2014

Review Cinema: X-Men - Dias de Um Futuro Esquecido



A primeira história em quadrinhos que eu li na minha vida foi X-Men. Foi a HQ que me levou a ler HQs e principal responsável por ter prendido minha atenção nesse universo ao longo dos anos. X-men é uma coisa muito, muito importante para mim, assim acompanho com interesse tudo o que é feito com eles. E os filmes, hein? Esses filmes são acompanhados com interesse por gente que nunca abriu um gibi na vida. Pra um nerd de carteirinha, então, são duplamente relevantes.

Podemos considerar como primeira fornada de filmes de super-heróis a que nos trouxe o Superman de Christoper Reeve e o Batman na visão de Tim Burton. Foi uma época que trouxe coisas boas e ruins, provavelmente falaremos sobre ela com mais detalhes aqui no blog num futuro próximo. A segunda fornada teve como um dos pilares o Homem-Aranha de Sam Raimi e apresentou coisas como O Demolidor de Ben Afleck, o psico drama do Hulk de Ang Lee e uma versão do Quarteto Fantástico que era o primo pobre dos Incríveis da Disney/Pixar, ironia das ironias se você considerar quem copiou quem, mas a vida tem dessas. Um dos arquitetos dessa segunda fase e também um de seus mais bem sucedidos empreendedores foi Bryan Singer, que assinou a primeira trilogia dos X-Men. Aí a DC viu o bom desempenho dos heróis da Marvel e quis um pedaço desse bolo, até aí, até eu que sou mais bobinho ia querer. A DC Warner ofereceu a Singer o encargo de rebotar a franquia do Superman, e o resultado foi um duplo desastre. Com a saída de Singer o final da trilogia mutante caiu nas mãos de um outro diretor e o fecho não foi legal, pra quem curtiu os dois primeiros ficou aquela sensação de quando o livro só termina sem que a história acabe, e que o pretenso "final épico" oferecido pelo estúdio nada era senão um belo de um engana-criança. Do outro lado, na direção do Superman Singer fez um filme pesado, sonolento e insosso que desagradou a gregos e troianos e exigiu medidas reparadoras imediatas com até São Chris Nolan sendo convocado para tentar ajudar a desfazer a imagem ruim que havia ficado. Quanto a Singer coube retornar ao seguro e garantido, à franquia mutante. Mas na sua ausência a franquia mutante havia andado e mudado. Mudado também o mercado. O Marvel Studios entrou no jogo, elevou o padrão de qualidade e iniciou a fase da terceira fornada.



Com Singer longe o X-Men 3 foi ruim e o Wolverine Origens foi pior. Até que um diretor novo apareceu e fez o X-Men Primeira classe, e contra tudo e contra todos acertou em tudo que todos os outros haviam errado até então, incluindo o próprio Singer. X-Men Primeira Classe foi o melhor filme dos mutantes já feito, com o melhor roteiro e a melhor execução, e deixou pairando no ar a dúvida se era um reboot ou uma prequência. A verdade é que na época a própria Fox não sabia, aguardando a recepção do público para então escolher o seu próximo passo com cuidado. Bom, X-Men Primeira Classe foi muito bem aceito e o queridinho Singer estava agora de volta, e como na ausência dele a cronologia havia virado um verdadeiro samba do crioulo doido, a direção a seguir a partir daí foi se formando. Sim, a cronologia. Os nerds que assistiam prestando atenção e conferindo as coisas não cessavam de chiar sobre isso e sobre aquilo, e até aí tudo bem porque os nerds sempre reclamam mesmo, é o normal e o esperado deles, um nerd que não reclama veio com defeito de fábrica e você tem todo o direito de acionar o Procon a esse respeito. Mas aqui as discrepâncias atingiam tal envergadura que o "público normal" também estava tendo dificuldades de entender onde uma coisa encaixava com a outra. Honestamente, pensei que a Fox estava pouco se lixando para a cronologia, ele própria sempre foi a primeira a enxergar esses filmes como "besteira" e "coisa sem importância" não dando maior importância à caracterização ou à fidelidade ao material original. Ah, mas que beleza é a existência de concorrência! A presença do Marvel Studios subiu o level e acostumou o consumidor a um determinado padrão de qualidade, forçando a Fox a se mexer. Singer queria cortar coisas feitas na sua ausência com as quais não concordava e a Fox queria se livrar dos filmes que não deram certo e a solução então foi um reboot parcial seletivo, usando viagem no tempo para apagar algumas coisas e manter outras. No caso dos X-Men existe aquela que é talvez a melhor saga já feita sobre viagem no tempo para mudar o passado, Dias de um Futuro Esquecido. A partir daí segue-se esse filme, que se você ainda não viu recomendo que siga o exemplo da Fox e se mexa um pouco.



Entre usar o elenco do bem sucedido X-Men Primeira Classe ou manter o elenco de sua própria versão clássica Singer acerta em cheio ao marcar palpite duplo. "O filme tem duas equipes de X-Men, uma no passado e outra no futuro". "E isso dá certo? Quer dizer, sem ofensas, mas excetuando Primeira Classe eles sempre mostraram uma completa imperícia em dar conta de fazer funcionar uma equipe só". Sim, mas aqui deu certo! Milagre, mal acredito, mas deu certo! O filme aliás é uma longa sucessão de acertos. Seguindo os passos de Primeira Classe ele procura ter aquela coisa de uma história que dá a cada um o que fazer, acertando menos do que o antecessor, mas ainda assim acertando o suficiente. No futuro as aparições são breves porém eficientes e certeiras, os heróis aparecem o suficiente para serem alguém esquecendo os erros de filmes passados onde as personagens novas não tinham mais do que uma cena de três segundos. No presente/passado excelente desenvolvimento para Charles Xavier, Magneto e Mística, palmas para os seus intérpretes, o filme tem a dura tarefa de ter que se dividir entre inúmeros protagonistas importantes para a trama e consegue fazê-lo sem deixar a bola cair em momento algum. E temos a volta do Wolverine, e todos os que não gostaram do excesso de foco no personagem em filmes anteriores aqui vão dar o braço a torcer que o caminho certo foi achado, ele aparece, é importante, é interessante e tem destaque, mas não rouba o espaço de mais ninguém, esse filme é "X-Men" e não "Wolverine e seus amigos". Peter Dinklage fantástico dá todo o peso que o vilão precisa, só nos fazendo lamentar que ele não tenha mais espaço na história, mas se não foi perfeito, foi bom o bastante. Não ser perfeito, mas ser bom o bastante define bem esse filme como um todo. Não, o problema cronológico não foi inteiramente sanado, mas é admirável o esforço genuíno para tentar fazê-lo. Não, esses mutantes da telona ainda não são aqueles dos quadrinhos Byrne/Claremont, mas caminham para uma identidade própria bem interessante. Não, o arco não foi perfeitamente transposto, mas muito do seu espírito central foi captado, aliás uma grata surpresa para quem se acostumou a ver a Fox ignorar completamente a fidelidade ao material original. Não, o texto não chega a ser melhor do que o de Primeira Classe, e nem precisa ser, é como quando Chris Nolan fez outro filme do Batman depois daquele do Coringa, não precisava superar o anterior, se demonstrasse boa vontade em manter o nível seria o bastante. Esse filme é bom o bastante. Consegue agradar aos saudosos da trilogia original tanto quanto os que (como eu) só conseguiram gostar do Primeira Classe. Ele se esforça para dar certo. Tem sentinelas que não tem nada daqueles dos quadrinhos, se você espera uma batalha igual à dos quadrinhos clássicos ou do episódio piloto da série animada dos anos 1990 vai ficar meio decepcionado, mas se só aceitar que essa é uma história nova pode se divertir mais do que imagina. E claro, eu não seria eu se não mencionasse o final com Magneto voando no meio dos sentinelas ou apontado dezenas de armas voadoras para o presidente, é uma referência que eu não vi ninguém mais mencionar, a referência foi tirada do primeiro arco da excelente HQ Ultimate X-Men escrita por Mark Millar, outro tiro certeiro de Singer, se o Marvel Studios sugou sem dó tudo que pôde de The Ultimates de Mark Millar, naturalíssimo que a Fox devidamente "saqueie" o Ultimate X-Men também, se é pra ser um reinício da franquia o caminho é esse mesmo, a linha Ultimate foi Criada precisamente pra esse fim mesmo. Por fim uma menção honrosa aos fantásticos Blink e Mercúrio, principalmente o Mercúrio que superou todas as expectativas, encantou a plateia e nos deixou ávidos para ver mais dele, primeira vez que isso acontece com uma personagem num filme da Fox, ou alguém já viu eles darem uma dessas antes? Não vale mencionar Wolverine e Magneto, protagonistas desde o primeiro filme.



Temos Dias de um Futuro Esquecido, Wolverine Imortal e Primeira Classe, três acertos seguidos. Parece que a Fox enterrou os vexames do passado e aprendeu a fazer filmes decentes, será? Que venha o X-Men Apocalipse, então! Será que a Fox irá se redimir de seu maior pecado e finalmente mostrar um Ciclope condizente com o dos quadrinhos? E o novo Quarteto Fantástico, visto com tanta desconfiança no meio nerd? O Primeira Classe também era visto com dois pés atrás e após o lançamento surpreendeu. Será o Quarteto outro êxito? A resposta em breve teremos. Por enquanto o certo é que a Fox cravou uma nota nove do Ozymandias Realista com esse filme. E nos deixou ansiosos para ver o que acontecerá depois.

 - Ítalo azul - 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Opinião: O Horror! O Horror!


O fim da miséria e da pobreza é uma aspiração humana que não cabe em nenhuma perspectiva de vida. Não há tempo. E nada é tão ruim como estar enganado. Não se deve acreditar que a dignidade dos pobres e miseráveis pode ser resgatada como se resgata náufragos, vítimas de violência e de sequestro. Pode-se criar programas sociais, alicerçados na vontade política de legisladores e na determinação de governantes que agilizariam as funções do Estado para que a máquina governamental dê conta da missão. O Leviatã hobbesiano se levantaria como um cachorrinho a ouvir a voz do dono e se prontificaria a obedecer todas as suas ordens conforme os esquemas plantados por um treinador. Mas, contraditoriamente, e por incrível que possa parecer, o homem não é o lobo do homem: isso é apenas um trocadilho infeliz que que leva a pensar no futuro como uma projeção trágica. Nenhuma mudança pode se efetivar sem um vínculo com a realidade. 


 A miséria e a pobreza tornam as pessoas meros acessórios. Por acessórios, as pessoas se tornam descartáveis e à margem de qualquer ação governamental. Pode-se vê-las como qualquer amontoado de lixo, confundindo-se com ele. Eis a questão. As velhas aspirações revolucionárias caducaram frente aos apelos do consumo e da ilusão de que o progresso material pode fazer superar todos os desconfortos. A superfluidade dos produtos compráveis, dessa forma, iguala as pessoas às mercadorias que adquirem para suprir o vazio, o que leva a reafirmar o truísmo de Blaise Pascal com grande amargura: "Coração tem razões que a própria razão desconhece". As revoluções não se sustentam mais. Ativam-se os banhos de sangue e evocam-se as ameaças nucleares que possam justificar qualquer e toda iniciativa de destruição de uns pelos outros. Ou se cultiva o medo, o horror, a ameaça de morte.

--Bóris Yellnikoff--

Galeria: Hulk -- Richard Corben


Outra HQ curta (pelo menos para mim) que o Azarello escreveu e conseguiu sintetizar com maestria um personagem, dessa vez o Bruce Banner e seu desespero por se livrar do Hulk ao qual ele considera um câncer em si. Essa daí é só uma das primeiras cenas, quando Banner dá um tiro na própria boca e em seguida vemos esse Hulk desenhado impecavelmente por Corben, cuspindo a bala e saindo para a destruição. Até mesmo no filme “Os Vingadores” (2012) essa HQ é referenciada na discussão que eles tem “manipulada pelo Loki” perto do final do filme...

-- Floyd Banner --

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Galeria: Luthor / Coringa


Capa dupla do encadernado em capa dura que reúnem as mini séries "Coringa" e "Lex Luthor -- O Homem de Aço", excelentes materiais que em breve estarão em review e download aqui , ambos são escritos por Brian Azarello e ilustrados genialmente por Lee Bermejo (na minha opnião, o Alex Ross do século XXI).  





-- Floyd Banner -- 

domingo, 9 de novembro de 2014

Fanfic: Ultimate DC 02 de 07



Capítulo 02 – Lendas Cósmicas

Quatro caças da Força Aérea americana cortam o céu a uma velocidade supersônica.

John Stewart:
- Por que será que na sessão de instrução os oficiais não mencionam que a trinta mil pés de altura, quando a cabine começa a despressurizar a primeira coisa que você sente é esse frio de congelar o saco?

Marvin:
- Noções básicas e elementares de como se impedir o próprio falecimento vem sempre primeiro, depois para quê estragar a surpresa de os novatos descobrirem esse tipo de coisa sozinhos? Agora se você puder se concentrar em apenas escaparmos daqui, quando estivermos a salvo em casa e seguros demonstraremos toda boa vontade do mundo em continuar ouvindo histórias acerca das suas sensações genitais.

John Stewart:
- Pode relaxar a pressão sanguínea cardíaca Marvin, você está mais a salvo do que se estivesse no colo da sua mãe. Aqueles babacas estão comendo poeira há quatro curvas atrás. Agora podemos diminuir a velocidade um pouco? Há cinco minutos a fuselagem e o motor estão rangendo inquietantemente. Mais uns cinquenta segundos nesse ritmo e acho que a pressão atmosférica aqui vai me descascar até as cuecas.

Marvin:
- Nem pensar, soldado. Ainda estamos sobrevoando espaço aéreo estrangeiro. Preciso lembrar que somos intrusos aqui sem nenhum tipo de autorização legal? Se formos pegos não temos garantia de nada.

John Stewart:
- Nós somos toda a garantia de que você precisa, cara. O esquadrão classe A, os matadores, a equipe de extermínio. Diz aí, Lily?

Lily:
- Estou com o Stewart, Marvin. Eu e Arthur também achamos uma sensata atitude desacelerar quando o avião te dá todos os sinais de que dois minutos no atual ritmo são mais do que a maquina vai suportar antes de se desmanchar feito um castelo de cartas.

Marvin:
- Parece que sou voto vencido aqui. Só para oficializar Arthur, me deixe ouvir da sua boca. Suas reclamações aí atrás geralmente são meu único indicio de que você ainda não levou um tiro. Arthur? Arthur?

Marvin, Lily e Stewart se voltam a tempo de ver o avião de Arthur explodir.
Atravessando a cortina de fumaça emergem três jatos arraia negros, abrindo fogo.

Lily:
- Ah, meu Deus! Alguém tem um plano?!

John Stewart:
- Eu. Escapar com vida daqui!

Os três jatos americanos têm sua fuselagem perfurada pelas balas e voltam a se espalhar pelo ar.

Marvin:
- O armamento deles é muito superior ao nosso! Taticamente já estamos derrotados!

John Stewart:
- E como a velocidade deles também é superior, bater em retirada não é uma opção! – começa a abrir fogo contra o caça inimigo que está no centro. O alvo resiste e Stewart aumenta a carga e sustenta.
Marvin e Lily também apontam suas armas para o mesmo alvo e disparam a toda carga.
Finalmente o caça explode. Os dois restantes atiram sem parar. Stewart, Marvin e Lily se esquivam.

Lily:
- Não sei vocês, mas eu não tenho nem mais uma única bala aqui!

Marvin:
- Eu também não, gastei tudo!

John Stewart:
- Também estou zerado, mas um já era, só faltam dois. Vai dar pra vencer!

Marvin:
- Vencer de que jeito?! Estamos de mãos abanando aqui!

John Stewart:
- Eu não. Tenho minha força de vontade. E não estou com um pingo de medo.

O avião de Lily é alvejado e mergulha descrevendo no ar uma trilha espiral de fumaça. No final da trilha aparece o paraquedas de Lily se abrindo.
O jato de Stewart desenha uma curva circular horizontal e começa a ganhar distancia. Um dos caças inimigos o persegue.

Marvin:
- Filho da mãe, jogou a toalha e deu no pé me largando aqui! Stewart, ele é mais veloz do que você!

Stewart faz seu jato girar em torno do seu próprio eixo feito um pião enquanto ziguezaguea pelo ar. O caça inimigo desajeitadamente tenta segui-lo.

Marvin:
- Ah meu Deus, ele é maluco?

Numa das curvas o caça inimigo não consegue desviar a tempo e se choca contra uma montanha.

John Stewart:
- Ser rápido demais também pode ser um defeito.

O último dos caças inimigos avança na direção de Stewart, abrindo fogo.
O avião de John Stewart descreve uma curva no ar e se joga na direção do oponente, a toda velocidade que pode.

Marvin:
- Ah meu Deus, ele é maluco!

O jato americano e o caça inimigo se chocam no ar e se desfazem ambos numa bola de fogo, que segundos depois é substituída por uma espessa nuvem de fumaça negra.

Marvin:
- Nãaaaao!!! Stewart!!!

John Stewart cai de pernas e braços abertos, estatelado contra o vidro da cabine de Marvin, ficando os dois com os rostos na mesma altura
- Sim, eu. O que é?

Marvin:
- Você é um completo maluco!

John Stewart:
- Eu escuto isso o tempo todo. Cara, sabe de uma coisa?

Marvin:
- O quê?

John Stewart:
- Agora é a bunda que está congelando.

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Escritório do General Lane.
John Stewart, Marvin e Lily, os três trajando suas fardas da Força Aérea americana cruzam as mãos nas costas e olham para o chão enquanto à sua frente o general Lane, de charuto na boca, despeja grosseiros insultos pessoais, expondo amplamente todo o seu desagrado.
O general é um homem branco, beirando os sessenta anos de olhos azuis e vasta cabeleira e bigode brancos. Ele é o segundo homem mais alto na sala.
Stewart é negro de cabeça raspada, porte atlético e razoavelmente alto, embora não tanto quanto o general.
A única mulher do recinto, Lily é de ascendência oriental e estatura mediana, bonita, usa um discreto batom rosa claro e traz seus longos cabelos negros brilhantes presos num coque irretocável, austero e formal.
Marvin é o homem mais alto do grupo, muito alto e musculoso, branco pálido de cabelos loiros claros, quase prateados e dois estreitos olhinhos verdes.

General Lane:
- Três completos idiotas!  Têm a mínima noção do que vocês fizeram?!

Lily:
- Permissão para falar, senhor.

General Lane:
- Negada! Quase criaram um incidente internacional! Sofrerão todas as punições e penalidades que eu puder lhes infringir, suas amebas descerebradas! A única coisa que eu quero é saber se existiu um líder. Foi ideia de uma pessoa especifica? O responsável existe para ser responsabilizado, se houve um líder então apenas ele será punido e deixarei os outros dois saírem livres. Houve um líder?

Os três ostentam um silencio impenetrável.

General Lane:
- Pois bem, então. Capitão Marvin, você está agendado para o teste do jato supersônico experimental da NASA ao qual o presidente estará presente assistindo. Cumprirá o protocolo conforme ajustado. Depois disso o seu rabo e de seus dois comparsas é todo meu. Aproveite seus últimos dias de paz antes de começar a sentir na pele o peso do meu descontentamento. – sai.

Marvin:
- Uau. Passou raspando, não foi?

John Stewart desfere um soco no rosto de Marvin, quebrando-lhe o nariz
- Seu idiota!

Lily:
- John, não! – corre até Stewart e o segura, se colocando entre os dois.

Marvin com o corpo curvado se apoia na janela com uma mão enquanto a outra segura o rosto coberto de sangue.

John Stewart:
- Você matou o Arthur, seu desgraçado!

Marvin:
- John, se acalme por favor...

John Stewart:
- Que raio de ideia idiota foi essa de arrastar seus três subordinados imediatos a uma incursão ilegal e suicida num país hostil do Oriente Médio?!

Marvin enxuga o sangue na própria camisa
- Stewart, se acalme, é uma ordem do seu capitão! O primeiro eu deixei passar de graça, o segundo vai sair caro. Você está perigosamente perto da insubordinação.

Stewart acerta um chute no meio das pernas de Marvin, que cai de joelhos no chão. Em seguida um soco com as duas mãos juntas na nuca, derrubando o colega no chão.
- Isso é o suficiente para eu ser considerado merecedor de algumas respostas? Que diabos fomos fazer naquele lugar?

Marvin:
- Quer mesmo saber? Fui entregar uma encomenda.

John Stewart:
- Encomenda? Encomenda de quê?

Marvin:
- Armamento. Vendi algumas coisinhas para os Sírios, para a Coreia do Norte e para a China.

John Stewart:
- Está me dizendo que Arthur morreu porque você é um verme escroto suficientemente desprezível para estar traficando armas militares americanas para nações estrangeiras hostis?

Marvin:
- Esta seria uma forma demasiadamente rígida e maniqueísta de se rotular uma situação que tem muitas nuances e “poréns” a serem compreendidos.

John Stewart dá um chute nas costelas de Marvin caído no chão, que se encolhe
- O senhor é um grandessíssimo canalha, capitão. Permissão para me retirar, senhor. – lhe dá um chute no rosto, terminando de estraçalhar o que restava do nariz de Marvin. Então sai.

Lily se ajoelha e ajuda Marvin.

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Pista de voo para jatos experimentais da NASA.
Um vistoso jato prateado ocupa o centro das atenções de uma plateia que abriga políticos, cientistas, militares de alta patente e repórteres que apontam suas lentes e holofotes para o protótipo caro apresentado hoje.
Encostado numa porta ao fundo, John Stewart observa de braços cruzados.

Lily se aproxima:
- John?

John Stewart:
- Lily. Não está fazendo companhia ao seu amigo capitão no grande dia dele?

Lily:
- Na verdade Marvin me pediu para vir até aqui para lhe dizer que ele sente muito.

John Stewart:
- Uau. Marvin sente muito. Excelente. Vamos contar ao Arthur e ver se isso basta para fazer o homem se levantar da sepultura.

Lily:
- Não, é serio. Marvin foi o maior idiota do mundo. Ele tem uma filha única de sete anos de idade que tem quatro tumores malignos na cabeça. A criança já ficou cega e perdeu os movimentos das duas pernas. Os médicos dizem que por três milhões de dólares é possível ter alguma esperança. A mãe da menina, que teve um parto problemático e hoje não pode mais ter filhos, agora não consegue dormir sem uma combinação de três ou mais diferentes sedativos de tarja preta. Ainda assim, o Marvin foi o maior idiota do mundo. Ele já imprimiu uma confissão escrita contando toda a verdade e se responsabilizando por tudo. Estará nas mãos do general Lane amanhã de manhã. Não hoje para não estragar para o general o grande e mui aguardado dia do teste do superjato experimental do presidente. Marvin sabe que vai ficar em detenção ou ser expulso, mas eu lhe disse que é a única atitude ética possível a ser tomada. E por hoje você vai pilotar o avião no teste.

John Stewart:
- Eu? Mas essa é a maior honra que um soldado...

Lily:
- Nós concordamos que de nós três você é o único com dignidade suficiente para ter direito a fazer isso.

John Stewart:
- Lily, eu... Não sei o que dizer...

Lily:
- Não precisa dizer nada, John. Só vá até lá e mande ver.

Encostado a uma janela no fundo do salão, afastado dos outros, Marvin faz um sinal positivo com o polegar para Stewart. John Stewart retribui o gesto com um sorriso sem jeito e se dirige para o centro do recinto, onde o general Lane já começou a apresentação.

General Lane:
- ... E finalmente observamos a demonstração, com o nosso valoroso capitão Marvin McParson. – se vira e vê John Stewart subindo no jato – Hã... Digo, do valoroso soldado John Stewart! Esse projeto bélico é nossa arma definitiva para acabar com as guerras e não poderíamos escolher para a tarefa soldado mais valoroso.

John acena para a plateia, entra no jato e afivela o cinto.

Marvin caminha até Lily e sussurra ao ouvido dela
- Você fez?

Lily:
- Sim. Sutil e delicado, ninguém nunca vai descobrir. Um botãozinho apertado por engano, uma chavinha acidentalmente ligada e o motor triplica a potência. John vai ligar a nave e antes de piscar vai haver entrado em orbita lunar. Uma perda lamentável porque algum técnico ao refazer um teste de rotina preparatório para hoje se esqueceu de desligar um botão depois.

Da cabine Stewart faz sinal positivo com o polegar para os dois.
Marvin e Lily sorriem e retribuem o sinal.

Marvin:
- Que pena. Eu gostava dele.

Lily:
- Eu também. Mas gosto mais do dinheiro que os nossos amigos do Oriente Médio nos dão. Você não?

Marvin:
- Está brincando? Podiam estar meu pai e minha mãe ali, não estou nem vendo!

John Stewart liga o jato e dá a partida. Na turbina explode uma bola de fogo que catapulta a nave numa subida diagonal estonteantemente hiperveloz.

O general, com seu quepe derrubado pelo vento da arrancada e o rosto todo coberto de fuligem negra dirige um sorriso forçado à plateia de espectadores.
- Hã... Isso é que é um motor potente, não é?

Um rastro de fogo, um risco flamejante no céu demarca a trajetória absurdamente veloz da nave que segundo a segundo se vê impelida a uma altura cada vez mais estratosférica. Então, no final do rastro aparece a bola de fogo da explosão, longe demais para ser ouvida. O abalo e o terror percorrem o rosto do general Lane e da plateia. Marvin e Lily reagem com a cínica dissimulação necessária.

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Um deserto de areia vermelha.
John Stewart abre os olhos e contempla o céu negro estrelado. Ao se pôr de pé vê seu corpo nu e a paisagem de desertos e montanhas escarlates. Nenhum sinal de cidades ou quais quaisquer obras das mãos humanas. No horizonte noturno estrelado, no lugar onde deveria estar o Sol encontra-se uma familiar esfera azul circundada por sua atmosfera de oxigênio, com seus continentes visivelmente recortados contra o vasto oceano.

John Stewart:
- Enlouqueci. É a única explicação.

Das sombras uma fraca voz responde
- Não. Você ainda está mentalmente são, John Stewart.

Stewart:
- Quem... ?

A visão é um tapa na sua cara, metaforicamente falando. O interlocutor é apenas vagamente humano. Pouco menos de um metro de altura, aspecto de um chiclete verde mastigado. Bracinhos e perninhas curtos ao lado do tronco, grandes olhos esbugalhados com o triplo do tamanho de olhos humanos e um vão negro fazendo as vezes de boca.
John Stewart corre até o disforme corpinho verde estirado no chão
- Ah meu Deus, você está bem? O que aconteceu? Foi algum acidente ou...

Jonn Jonz:
- Minha aparência não se deve a algum acidente de qualquer natureza, John Stewart. Meu povo possui, ou melhor, possuía essa exata aparência. Chocante para seus olhos humanos, não é? Éramos três mil e seiscentos, todos iguais a mim, ocupando todo esse mundo. Hoje só restei eu. Meu nome é Jonn Jonz.

John Stewart olha para a areia e as montanhas vermelhas e para o planeta azul cintilando no horizonte
- Estou em Marte?

Jonn Jonz:
- Marte? Ah sim, é como vocês chamam na Terra. Marte. Nós nativos chamávamos de OA. O centro do universo. Vê isso que hoje é um cinturão de asteroides? Tempos atrás era o planeta Krypton. Minha raça, a mais antiga do universo, habitava OA, a maior das luas de Krypton, e dela vigiávamos toda a criação. Nos chamamos a nós mesmos de Guardiões do Universo. Assistimos florescer no planeta ao qual nosso lar orbitava uma raça singular: Os Kryptonianos. Fortes, poderosos, impiedosos e guerreiros por natureza. Os acompanhamos com interesse. E no planeta ao lado, a Terra, um capricho da mãe Natureza fez nascer a raça dos humanos, fisicamente idêntica à Kryptoniana, embora sem a mesma força. Mas os humanos sempre evoluíram. Em um momento do tempo, no local que você conhece pelo nome de Grécia, um grupo de humanos se destacou e evoluiu além de todas as expectativas. Eram seres especiais. Homens que por seus feitos e natureza exigiam o nome de deuses. Zeus, Poseidon, Ares, Atena, Hercules. Desenvolveram uma força que rivalizava com a dos Kryptonianos. O choque foi inevitável. A guerra ameaçava devastar toda a galáxia. De um lado o panteão dos deuses gregos e do outro um exercito de super-homens kryptonianos. Incontáveis inocentes foram atingidos até que os Guardiões do Universo intervissem. Acionamos nossa equipe de elite, a Tropa dos Lanterna Verdes, a qual criamos para ser a Policia Galáctica. Seguiu-se uma cruenta carniçaria inimaginável. Os deuses gregos foram todos mortos e hoje a sua existência é tida como mito na Terra. Nossos Lanterna Verdes se juntaram e emitiram uma só rajada mortal com seus poderes combinados e explodiram Krypton. Paralelamente um ataque kryptoniano vitimou maus irmãos. Só restei eu. Os Guardiões do Universo pereceram e a tropa dos Lanterna Verdes junto perdeu seus poderes, desaparecendo completamente. Sinestro foi nosso primeiro e maior tenente, nunca imaginamos que seu coração se deixaria seduzir pela ganância e ele viria a nos trair, firmando uma aliança com nossos inimigos. Sinestro desativou por dentro o campo de força e demais mecanismos de defesa do salão central do palácio dos Guardiões em OA. Eu matei Sinestro com as minhas próprias mãos, mas o estrago já estava feito. O palácio foi pulverizado e todo o planeta estremeceu com o baque, toda OA se tornou um deserto estéril. Morreram todos os deuses gregos, todos os super-homens kryptonianos e todos os Guardiões do Universo. Estou sozinho sentado nesse deserto esperando há cerca de sete mil anos terrestres.

John Stewart:
- Esperando? Esperando o quê?

Jonn Jonz:
- Aparecer alguém como você. Me dê sua mão.

John Stewart:
- Minha mão? – a estende – Mas o quê... ?

Jonn Jonz abre sua mão e dela voa uma esmeralda do tamanho de uma uva. A esmeralda pousa sobre o dedo indicador de Stewart e expande um elo lateral até completar a volta e ficar preso ao dedo.

John Stewart:
- Um anel?

Jonn Jonz:
- Não, não um anel, sua mente está tentando transformar em algo que você seja capaz de compreender. Não é um anel, é uma estrela compactada. O poder de uma estrela de primeira grandeza na palma da sua mão. Luz estelar verde presa num campo gravitacional. Use para fazer construtos, cria virtualmente qualquer coisa que você seja capaz de imaginar. Era como faziam nossos Lanternas Verdes. Esse é o último, use-o bem.

Stewart:
- Por que eu?

Jonn Jonz:
- Estou há sete mil anos terrestres aguardando a chegada do lendário cavaleiro de coração puro e vontade inabalável. Mas como parece que ele não vem mesmo, serve você, vai! Um homem suficientemente cabeça dura para ser capaz de dobrar a luz de uma estrela com a sua mente. Toda lanterna usa uma bateria, mas esse anel não possui bateria alguma. A bateria é você. Ele se alimenta da sua mente, da sua força de vontade. Isso vai te exaurir mais do que qualquer atividade física iria, você sentirá necessidade de dormir mais e se alimentar em dobro do que faz agora, dará dor de cabeça e se forçar além da conta pode virar um aneurisma. Não vou mentir, é tanto uma benção quanto uma maldição. Você receberá um grande poder, mas todas as coisas nessa vida têm um preço.

John Stewart:
- E se eu disser não?

Jonn Jonz:
- Não vejo que muita escolha você possua. Você está morto agora. Seus amigos Marvin e Lily te mataram na explosão do jato. A Lanterna Verde está mantendo suas sinapses ligadas. Tire o anel e seu cérebro desliga, o coração e o pulmão param e você vira comida de minhoca.

John Stewart pára, hesita e respira fundo. Então levanta no ar a mão com o anel e surge uma bolha de luz verde em volta dele e de Jonn Jonz.
- Você está ferido. Vamos para casa.

Jonn Jonz:
- Até que enfim! Aprecio deveras um prato terrestre chamado cordeiro assado com molho de gengibre e cebolinha. Vocês terrestres ainda comem cordeiros assados com molho de gengibre e cebolinha?

A esfera verde luminosa contendo os dois levanta-se no ar e arranca na direção da Terra.

John Stewart:
- Vou ver o que eu posso fazer. Marcianos falam inglês? Não devia ser marcianês ou coisa do tipo?

Jonn Jonz:
- Estou falando por telepatia, projetando as palavras dentro da sua mente.

John Stewart:
- Está aí uma ideia maluca. Não que tenha sido a única coisa maluca que eu ouvi hoje. Que história você me contou! Uma guerra cósmica milênios atrás com deuses gregos do Olimpo, super-homens alienígenas e uma polícia galáctica que usa estrelas verdes como armas? Está aí um conceito absolutamente perturbador! Ainda bem que os dias de coisas assim já passaram, não é Jonn Jonz? Jonn Jonz? Os dias de coisas assim já passaram. Não é?

Fim do capítulo 02
A Seguir: Princesa Diana, filha dos deuses.

  
- Ítalo Azul -