quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Super-Herói, Um Apólogo da Alma Ocidental (parte 2/3)

 Wagner Williams Ávlis*
“A necessidade de heróis de carne e osso para sacrificar sua vida na [segunda grande] guerra criou a necessidade da fantasia dos super-heróis” – Nildo Viana[1].

               Uma vez que sabemos a significação do gênero de super-heróis nas HQs, que nada mais é do que a alegoria do apólogo, a questão que se põe agora é de onde vem a noção primordial do super-herói. Antes de passarmos a ela, cumpre dizer ainda que a noção é derivada da aspiração, e não o seu contrário. A humanidade não formulou primeiro uma noção do ser herói para depois nela se inspirar; foi o inverso: primeiro nossa espécie sentiu a aspiração, para depois, concretizando-a, formular a noção; é que a sublimação heroica está mais para uma questão instintiva do que acessória, e, como instinto, acompanha o homem desde sua primitiva aventura na Terra. Quaisquer das tribos hominídeas nas savanas da África ou nos vales da Ásia se sentiam ameaçadas por perigos que davam curso à seleção natural, por conseguinte, a sobrevivência, adversidades que, se de um lado encurralavam os homens de Yuanmou[2] para o medo, um dispositivo de autopreservação, por outro, oportunizavam alguns poucos desses mesmos homens de Yuanmou ao impulso da coragem – outro dispositivo de autopreservação, porém mais elevado –,  coragem essa que, decerto, salvou vidas, senão toda a tribo. Porque é a coragem o atributo mais característico do herói. Por isso o T-1000 em O Exterminador do Futuro-III disse “a raiva é mais útil do que o medo”, porque, de inegável, a raiva leva à coragem. Foi a coragem inconsciente e intraduzível, mediante a ausência de fogo, que fez três hominídeos do Paleolítico de 80.000 a.C. heróis da tribo Ulan no premiado filme A Guerra do Fogo (1981). Amoukar, Naoh, Gaw, enviados por um primata mais velho, saem numa jornada em busca do fogo roubado por uma tribo caçadora rival. Foi a coragem de Ulisses em querer regressar para sua esposa Penélope em Ítaca, na Grécia do séc. XII a.C, que não só o fez regressar como enfrentar toda uma rapsódia de desafios descomunais entre o Egeu e o Mediterrâneo, melhor vista em A Odisseia, de Francis Ford Coppola (1997). Foi a coragem de transmitir a divina revelação de Alá através de um anjo, em meio à renhida luta de tribos árabes politeístas adversárias, além dos reinos cristãos, como o da Abissínia e Bizâncio, que fez de Maomé um herói do Islã em todos os sentidos. Em todos os atos de revanche, em toda jornada desafiadora, em todos os messianismos, está subscrita a coragem, que faz de seus portadores heróis, quer mártires, quer imperadores.


 


Coragem de realizar aquilo que o comum não faz ou que a maioria não conseguiria fazer: atributo do e o que faz ser um herói.
A coragem, o primeiro ato de heroísmo, segue viva no coração dos homens como uma nobre aspiração que, com o desdobrar do tempo, derivou várias noções de super-herói. Dando um exemplo ainda arcaico, a noção de super-herói incorporou duas naturezas, uma espiritual, outra marcial. A noção espiritual veio das divindades salvadoras, das entidades infra-sobre-naturais do bem e do mal (maniqueísmo), das criaturas de assombração das matas, dos semideuses e das semideias, dos seres híbridos errantes, do mágico xamânico, da feiticeira, dos profetas, oráculos, videntes, adivinhos, médiuns, necromantes; com a noção marcial vieram o rei, o faraó, o guerreiro, o gladiador, o cavaleiro, o espadachim, o arqueiro, o viking, os guardiões, os arcanos, o navegador descobridor de mares, o pirata, o mercenário, a caçadora da tribo, a amazona, samurais, xoguns, ninjas, katanos. Entrementes, numa roupagem mais contemporânea, essa noção do super-herói reconfigurou-se nos tropeiros imperiais, no detetive, no policial, no bombeiro, no salva-vidas, nas forças armadas, na enfermeira, no médico, no cientista, no investigador, nos terroristas, nos serviços de inteligência, nas forças-tarefas de resgate, nos esquadrões ostensivos, nos lutadores de artes marciais, nos atletas, nos artistas, nos famosos, em personalidades eminentes da História, como atesta o crítico literário francês Roland Barthes, esses são os novos mitos hoje[3].
O viking e a encantadora de animais (em cima): arquétipos da noção marcial e espiritual do ser herói para a Antiguidade. Já Bruce Lee, um policial antibomba, bombeiros guarda-vidas (embaixo), são alguns dos novos personagens que herdaram o status de herói na contemporaneidade.
Durante as etapas de sua história, cada civilização, em geral em eras de extremos: ou no apogeu ou na decadência, possuiu seu grande herói, fabricou-o com requintes linguísticos mais elaborados, e no caso das culturas letradas até o registrou em documentos literários com pretensões históricas, imortalizando-o. Gilgamesh da Suméria, Hércules da Grécia, Sansão de Israel, Beowulf da Saxônia, Siegfried da Suécia, Cúchulainn dos celtas, Quetzalcóatl do México, Brünnhilde da Germânia, Joana d’Arca da França, Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda, da Inglaterra, são os casos mais famosos de super-heróis de civilizações antigas notáveis. Mesmo assim, a maioria desses super-heróis antigos era instável, não carregava sobre si o ideal moderno de um herói, isto é, a projeção das virtudes como o bom, o belo, a justiça, a verdade, a honra, a lealdade, a moral, a dignidade, a esperança, o amor, a fé; não estava preocupada com um sistema ético canônico, nem ser modelo virtuoso para ninguém, por vezes mentia, traía, saqueava, torturava, sequestrava, assassinava quando lhe era conveniente ou oportuno[4]. Foi, sem dúvida, o Cavaleiro da Triste Figura – Dom Quixote de la Mancha (1605) – o primeiro herói (bem como o primeiro romance) moderno, ainda que de forma imaginária, satírica, paródica às novelas medievas de cavalaria. Para o mundo imaginado de Quixote ele mesmo encarnava o ideal das virtudes, porém, quando defrontado com a amarga realidade circundante, anti-heroica, apercebia-se de que seu ideal era frustrado; “ao regressar a seu povoado, Dom Quixote percebe que não é um herói, mas que não há heróis”[5]. É ou não é a antecipação das antíteses ideológicas que agora os super-heróis quadrinísticos enfrentam, a chamada crise da razão e dos valores, vista, por exemplo, em “Poder Supremo”, de J. Michael Straczynski (2003), “Superman, Olho por Olho”, de Joe Kelly (2001), “The Authority”, de Warren Ellis e Bryan Hitch (1999), “Watchmen”, de Alan Moore (1986)?
Dom Quixote e Authority – crise das virtudes heroicas, antítese entre valores ideais e valores reais. Quixote é o primeiro herói moderno justamente por abordar o modelo clássico do heroísmo em declínio pelos novos paradigmas duma sociedade em crise de valores e sem mais referências heroicas a imitar. Todos os heróis modernos, do cinema às HQs, têm Quixote como ponto de partida.  
Podemos dizer, com o advento do romance e do herói modernos, que tem por epicentro Dom Quixote de Miguel de Cervantes, personagens heroicos passaram a encarnar o ideal canônico das virtudes, às vezes com purismo, outras com realismo multifacetado. De todo modo, mesmo um Don Diego De La Vega, o Zorro de Johnston McCulley – na representação do arquétipo da resistência contra colonos e governos tirânicos – ou um Tarzan de Edgar Rice Burroughs – como arquétipo do mito do bom selvagem – é a representação de um ideal de virtude (e muitas vezes de estética), o que de melhor subsiste no homem ou na mulher, o potencial atingido que aspira se manifestar do âmago da humanidade para melhorar o mundo. Esses heróis (ou super-heróis, se preferir), além de transmitir, num primeiro plano, tais potenciais humanos, transmitem, num segundo plano, lições de vida oriundas e subentendidas das adversidades, injúrias, dos dilemas, obstáculos que sofrem ao longo de sua jornada, óbices que põem à prova as virtudes heroicas desses personagens, mas que, de mesma sorte, põem à prova o leitor, interpelando-o a se perguntar: “Se fosse comigo, eu teria a capacidade de agir assim?”. “O pensar, o agir, o sentir, o crer e o fazer daquele personagem lembram o meu jeito”. É neste ponto, a aferição das virtudes na personalidade dos entes ficcionais, que se estabelece a identificação entre personagem e leitor – um leitor que quer despertar o que é “super” dentro de si, seja para o bem, seja para o mal, recaindo na noção da disputa por poder –, fator determinante para a memória afetiva que, não raro, é responsável pelo sucesso de uma persona ou da obra. Devido ao sucesso dos quadrinhos em nosso tempo, praticamente todos os super-heróis do mainstream têm seus potenciais e suas lições de vida explorados pela cultura pop de forma didática, para crianças a adultos, a meu ver, um sinal positivo, se bem que embrionário, de que a indústria começou a olhar os supers com a maturidade que lhes é própria.
Note quão distantes já estamos daquela medíocre noção de um super-herói ser coisa de criança, ainda mais quando percebermos que, num esforço hipercriativo, quando na pop art alienígenas eram sinônimo de invasores exploradores do mal, e ser herói estava limitado à capacidade humana, surgiu nos céus um herói que ambicionou reunir unicamente em si as virtudes, façanhas e potenciais de todos os heróis até ali existentes na História. Um herói que elevou o termo “super” às últimas consequências e que fez acontecer, na prática, em todos os sentidos, o lema “para o alto e avante!”.
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WAGNER WILLIAMS ÁVLIS – crítico literário da Academia Maceioense de Letras (reg. O.N.E. ​nº 243), professor de Língua Portuguesa, articulista e historiador do Homem-Morcego.



[1] Especialista, mestre em Filosofia e doutor em Sociologia pela UnB. Professor da Universidade Estadual de Goiás. Cf. Super-Heróis e Axiologia (artigo). Revista Espaço Acadêmico nº 22, ano 2, março de 2003.

[2] Homo Erectus Yuanmouensis foi uma subespécie do homo erectus vivida em Yunnan, na China, 1,7 milhão de anos atrás.

[3] Ver “O mito hoje e a fabricação dos mitos contemporâneos”. In. ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de Filosofia, 3ª edição. São Paulo: ed. Moderna, 2005, pp.126-129.

[4] Dos listados, exceto Joana d’Arc.

[5] Cf. OLIVEIRA, Manoela Hoffmann. Dom Quixote como Primeiro Romance Moderno. XI Congresso Internacional da ABRALIC – Tessituras, Interações, Convergências, USP, 2008.

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