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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Ter sido da época do David Bowie


Hoje faz um ano da morte do inesquecível David Bowie. Um dos artistas de nosso tempo que mais deve ser lembrado nas próximas décadas, visto a riqueza e versatilidade de seus trabalhos. Então resolvi escrever esse texto em estilo de crônica registrando a minha impressão quanto ao cantor agora que já faz um ano de sua despedida.


Como eu conheci o David Bowie?


Por partes. E não, não foi em 72, época do vídeo acima, rsrs. Eu nasci no meio dos Anos 90. Daí até 2003 houveram uns cinco ou seis álbuns do David Bowie. Mas eu era criança! Eu não ouvia! Então de onde eu conhecia o David Bowie? De um monte de lugares e sempre sem conhecer direito. Havia o clipe de "Starman" sendo tocada ao vivo que meu irmão mais novo tinha baixado no PSP e no computador. Eu amava, mas não tinha qualquer ambição de procurar mais coisa. Tinha ele naquele filme da Sessão da Tarde.


Tinha naquele filme do Christopher Nolan também.


Ele aparecia no making-of do DVD do "Shrek 2" porque tocava uma música sua, "Changes", quando o Shrek e o Burro tinham tomado a poção Felizes Para Sempre e voltavam para o reino de Tão Tão Distante.


Aí meu irmão tava jogando "Omikron", primeiro game da Quantic Dream, e diz "apareceu o David Bowie!!!" Tipo... o quê? Por que apareceu o David Bowie no jogo? Em uma rápida pesquisa na Internet você descobria que ele havia trabalhado na trilha sonora do jogo.


Em algum lugar aí da Internet você descobria que um personagem do game "Metal Gear Solid" era uma homenagem ao trabalho do cara também.


A prima de um amigo meu tinha uma puta de uma tatuagenzona dele no braço.


E uma vez estávamos não sei aonde e vimos entre vários DVDs velhos de colecionadores um filme de vampiros ou um de guerra que tinha escrito na caixa "David Bowie". Nós ficávamos: "David Bowie? David Bowie?! Mas por que tem David Bowie nesse filme?!". Parecia um grande mistério, como se na vida Bowie fosse um daqueles personagens que só aparecem de vez em quando em um videogame e quando você finalmente o encontrasse direito ele faria grande revelações sobre a trama. Recordando talvez tenha sido isso mesmo...


E é claro. Antes que nos esqueçamos que se tratava de um músico, também haviam as colaborações dele com caras famosos como Queen, Mick Jagger e John Lennon.



Quando eu comecei a REALMENTE conhecer o David Bowie?


Se aproximando de 2010 eu já era adolescente e podia contar com o desserviço que era prestado à minha geração com músicas ridículas pra você se identificar. Então eu ficava ouvindo músicas da época dos meus pais e dos meus tios conforme recebia a notícia que os Scorpions estavam em turnê de despedida e me lamentava por ter perdido a chance de ver caras como AC/DC e Alice Cooper (eu já sonhei quatro vezes que tinha perdido o show do Alice Cooper. Foi horrível...). Então eu começava a procurar as músicas que me agradavam, pois elas não estavam no Multishow e na Mtv eu já não via o Matanza e o Massacration há um tempinho conforme se tornava um canal 100% sobre comportamento e comédia. Meu MP... 5? Já tinha as músicas que eu gostava, preenchido de ponta a ponta com Accept, Ozzy Osbourne, AC/DC e Alice Cooper. Entre essas... tinha umas coisinhas do David Bowie.


Tinha "Let's Dance", "Cat People" que tocava no filme "Bastardos Inglórios", "Fame", e "Starman". Eu gostava daquele cara. "Let's Dance" dava vontade de fazer aquelas dancinhas dos Anos 60 apontando pra cima como nenhuma outra música. Eu e meus amigos consideramos fazer uma apresentação assim no festival de talentos do colégio. Uma pena, acabamos não fazendo nada. Mas era uma boa ideia... Nós éramos zueros! Meu irmão e uma molecada uma vez fizeram a dança da banana. Pena que foi meio tenso porque todos os pais ficaram sérios e não viram a mínima graça... Bem, eu fiz questão de parabenizar todos eles, hehehe. 

Todo mundo que ia lá tocava Restart... A noite toda! Foi um alívio ver a dança da banana!

Bem, meia dúzia de músicas e uns shows que às vezes tavam passando na TV... Eu achava o cara legal, mas era como se eu fosse um personagem dos filmes da Marvel e o sr. Bowie fosse o Stan Lee. Ele estava em todos os lugares, era legal e curioso, mas eu não entendia claramente a... importância que aquele cara tinha além de suas insistentes aparições no universo.


Eis que...


Here I am! Not quite dying!

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Foi com o completamente repentino lançamento do clipe "Where Are We Now?" que Bowie começou a fazer parte do meu dia a dia como uma novidade, e não mais um nome do passado. Foi no início de 2013, dia 8 de janeiro, no seu aniversário de 66 anos que foi anunciado seu novo álbum. Um belo dia de manhã havia um clipe de uma nova música do Bowie no Youtube. Eu fiquei animadão! Era o David Bowie! Aquele cara de... onde mesmo? Do Metal Gear? Ah é! De todo lugar! No final de fevereiro houve mais um novo clipe! The Stars Are Out Tonight!

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O outro clipe também era bom, mas caramba, "The Stars" foi David Bowie na sua cara! Ele aparecia bastante e atuando muito! Tinha até a atriz Tilda Swinton no clipe. Não haviam teasers, não havia qualquer enrolação. Era apenas a data de lançamento para 11 de março e duas músicas maravilhosas com belos clipes divulgadas. Não demorou muito depois que saiu o clipe do "Where Are We Now?", que eu lembre nem uma semana, e já haviam textos longos e sérios refletindo sobre a técnica de marketing do anúncio do novo álbum do David Bowie, muito diferente do que costumam fazer liberando partezinhas de músicas e clipes o tempo todo.

Alguns dias antes do lançamento oficial via iTunes o álbum vazou na Internet, o que infelizmente é muito comum. Era impressionante como as faixas eram tão diferentes umas das outras, como tantos anos parado o Bowie não parecia ter piorado nada, tanto em técnica quanto criatividade. Do início até o final do álbum você ouvia faixas que não ia esquecer. Depois da décima música tinha "How Does The Grass Grow" que parecia um bebê irritante no refrão e "You'll Set The World On Fire", nascida para ser um clássico de rock.

David Bowie, Martion Cotilard e Gary Oldman

Quem fazia o roteiro dos clipes era o próprio Bowie e a direção ficava com a competente Floria Sigismondi. No outro mês saiu o clipe da faixa-título que abria o álbum "The Next Day". Apesar da sátira à igreja, a letra da música parece contar também sobre o retorno do cantor, é o que muitos especulam.

Look into my eyes he tells her
I'm gonna say goodbye he says yea
Do not cry she begs of him goodbye yea
All that day she thinks of his love yea

They whip him through the streets and alleys there
The gormless and the baying crowd right there
They can't get enough of that doomsday song
They can't get enough of it all

Listen

Listen to the whores he tells her
He fashions paper sculptures of them
Then drags them to the river‘s bank in the cart
Their soggy paper bodies wash ashore in the dark
And the priest stiff in hate now demanding fun begin
Of his women dressed as men for the pleasure of that priest

Here I am!
Not quite dying!
My body left to rot in a hollow tree!
Its branches throwing shadows!
On the gallows for me!
And the next day!
And the next!
And another day!!!


Ignoring the pain of their particular diseases
They chase him through the alleys chase him down the steps
They haul him through the mud and they chant for his death
And drag him to the feet of the purple headed priest

First they give you everything that you want
Then they take back everything that you have
They live upon their feet and they die upon their knees
They can work with Satan while they dress like the saints
They know God exists for the Devil told them so
They scream my name aloud down into the well below


Here I am!
Not quite dying!
My body left to rot in a hollow tree!
Its branches throwing shadows!
On the gallows for me!
And the next day!
And the next!
And another day!!!


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Pra não nos esquecermos dele, em julho ainda saiu o clipe de "Valentine's Day".

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Todos os clipes eram foda e nem sequer havia qualquer comentário do Bowie sobre a produção. Antes os fãs teorizavam se ele não andava sumido por estar mal de saúde e não querer que isso fosse a público, o que acontece algumas vezes quando figuras públicas têm doenças graves, como Alzheimer, por exemplo. Apesar de após a morte dele (de câncer), imaginamos que ele não estivesse tão mal, pois o produtor do "The Next Day", Tony Viscontti, comentava no final de 2014 que fazer shows dependia da vontade do camaleão.

"Definitivamente nós lançaremos um novo álbum, e será logoCom relação a shows, eu não tenho ideia do que vai acontecer. Ele claramente não promoveu The Next Day  com turnê, e se ele vai fazer isso com o próximo eu não sei e não consigo prever - só depende dele"

No fim não houve qualquer show ou até mesmo entrevista nos últimos anos, o cara morreu sem soltar uma palavra que não fosse cantada. Antes desse retorno surpresa com "The Next Day" ele nem sequer era visto publicamente. Aliás, eu lembro de apenas duas vezes. Uma foi o enterro do Lou Reed e outra era uma foto dele andando na rua, diziam que era porque o filho dele estava no hospital e ele teve que sair correndo pra ir ver.


Mas era completamente recluso. Sobra esperarmos pra ver se agora que ele morreu com os anos veremos entrevistas ou making-ofs dos seus últimos trabalhos... Em novembro de 2015 foi liberado o clipe da faixa-título do novo álbum, a hoje famosa "Blackstar". O vídeo, que hoje tem mais de 30 milhões de visualizações, tinha DEZ MINUTOS e era diferente de todo o álbum anterior.

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Me lembro bem que só vi em dezembro e fiquei revoltado. Tipo, como em todas as suas relações sociais pode não ter UMA pessoa que te avisa que saiu uma música nova do David Bowie?! Cara! A vida foi passando, tinha um monte de notícias de cultura pop na Internet. Ia sair "Deadpool", ia sair "Batman V Superman", ia sair "Star Wars VII". Eis que dia 10 de janeiro... David Bowie havia morrido.



Something happened on the day he died...


Spirit rose a metre and stepped aside...


De acordo com a mensagem que foi postada no Facebook oficial do artista, ele morreu de câncer rodeado por parentes amados.

Como uma pessoa normal...


A diferença foi na mesma época ter saído o último novo álbum e o clipe "Lazarus", onde Bowie se apresentava deitado em uma cama, bem desgastado como em "Blackstar", e se apresentando como se estivesse com uma doença terminal. A música também discute um pouco as questões da vida artística, com ele se encucando enquanto tenta escrever. A letra parece refletir todo o passar de uma carreira:

Look up here, I'm in heaven
I've got scars that can't be seen
I've got drama, can't be stolen
Everybody knows me now

Look up here, man, I'm in danger
I've got nothing left to lose
I'm so high it makes my brain whirl
Dropped my cell phone down below


Ain't that just like me?

By the time I got to New York
I was living like a king
Then I used up all my money
I was looking for your ass

This way or no way
You know, I'll be free
Just like that bluebird
Now ain't that just like me?

Oh I'll be free
Just like that bluebird
Oh I'll be free
Ain't that just like me?


A letra não é muito direta, podendo gerar várias interpretações, mas soa inegavelmente triste, como a "Blackstar". Um documentário lançado agora que foi produzido pela BBC, justamente sobre os últimos anos do cara, revelaram que ele só descobriu o câncer terminal três meses antes de morrer. O trabalho já estava todo feito, ele só tinha interesse de dialogar com o aspecto bíblico da ideia de "Lazarus", não com sua própria morte, que, coincidentemente (!) veio apenas três meses depois.

Estamos chegando no dia de hoje... Estamos chegando em 10/01/2017....


2016 foi passando... Lemmy Kilmister (Motörhead), Jimmy Bain (Rainbow) e David Bowie estavam mortos. Morreram também outros mortais notáveis no mundo da música. Prince, Leonard Cohen... Enquanto um festival muito interessante era organizado em algum lugar, aqui eu ia escrevendo textos no meu hobby de blogueiro. Em 2016 comecei algo que já queria fazer desde... mais ou menos setembro e outubro de 2015. Comecei a escrever alguns textos refletindo sobre a carreira solo de músicos que gosto. Os resultados foram na sua maioria positivos.


Entre o do Wolf Hoffmann e o do Dio houve um post falando de dois artistas ao mesmo tempo, traçando um paralelo sobre seus talentos. Foi chamado "Alice Cooper&David Bowie: Artistas no FULL POWER". Em menos de 12 horas, que eu me lembre, já havia conseguido mais de 1.000 visualizações da página, no dia inteiro então eu nem me lembro. Acho que foi o que eu mais gostei. No texto eu comparava em vários tópicos o Sr. Bowie com o meu artista preferido, a Sra. Alice.

http://ozymandiasrealista.blogspot.com/2016/07/alice-cooper-bowie-artistas-no-full.html


O fascínio por Bowie continuava, e agora em outro ano, ainda continua. Assim como as poesias de Lemmy Kilmister do Motörhead (que eu até gostaria de ter feito um post em dezembro quando deu um ano de sua morte, mas acabou não rolando, infelizmente), Bowie tinha todo um espectro que ainda cativava, continuava parecendo rico e pertinente após sua morte. Durante o ano um pensamento que me passou sobre o David Bowie foi que... eu fui da época dele! Veja só, desde a minha infância eu ouvia falar dele nos mais diversos lugares, apenas na adolescência o tratando como um músico que eu curtisse, tendo uma seleção de suas músicas na minha playlist. Mas! Apenas em 2013 eu estava realmente acompanhando novidades sobre David Bowie!


Há outros nomes notáveis que cantavam trazendo experiências que fazem milhões de pessoas serem agradecidas por eles simplesmente existirem. Tem o Elvis, Michael Jackson, bandas como Beatles, Black Sabbath, Kiss e Pink Floyd, mas acho que o melhor exemplo é o Queen com o Freddie Mercury. A experiência de ouvir Queen parece alcançar níveis infinitos. Há o ouvir das músicas e depois o assistir das músicas sendo tocadas ao vivo em um DVD. Cara, você quase chora pensando como devia ser assistir um show do Queen e ter aproveitado daquela época. Eu ouvi Queen minha vida inteira, minha família toda curte, até minha tia-avó. Mas isso não significa que eu vivi na época do Queen. Poxa, eu vi o Brian May tocando na abertura das Olimpíadas, mas não tinha o Freddie Mercury. A época passou e eu nem tinha nascido! Não tive a oportunidade de assistir. Também não fui da época dos Ramones, o Joey morreu eu era criancinha ainda, poxa. E agora que eu pensava sobre o Bowie ter morrido, escrevia textos sobre ele... eu pensei... Que eu fui da época do David Bowie! Eu senti isso como uma sorte e até uma certa alegria!


O que eu penso sobre o David Bowie é que... eu fico feliz de ter pego o lançamento de dois álbuns dele. Cara, eu vi a divulgação dos clipes, postei no meu blog, comentei com os amigos e até recebi a notícia da morte dele. Essa é a sensação de ter sido da época de um artista, ter pego seus trabalhos todos quentinhos quando saíram. Eu ficava ouvindo as músicas novas dele, várias e várias que eu tinha gostado; aí na reprodução automática o Youtube me mandava pra um monte de remix que já haviam sido feitos por outros artistas. E alguns eram muito bons, ouvi bastante "Love is Lost", que até tinha um clipe com a participação do cantor.


Esses dias, faz nem uma semana, eu fui na livraria comprar a biografia em quadrinhos do Stan Lee, "Incrível, Fantástico, Inacreditável Stan Lee" (tá em promoção, aproveitem!) e quando saía vi um livro chamado "1001 álbuns para ouvir antes de morrer", aquele que relançam todo ano com atualizações. Curiosamente, eu abri exatamente na página que tinha o Alice Cooper, meu artista preferido, e provavelmente só por isso, continuei folheando o livro. Chegando no final havia o "The Next Day", de 2013, e alguns comentários sobre como a capa com o quadrado branco cobrindo a foto de "Heroes" procurava representar como a música pop trás muitas coisas vazias ignorando completamente o que foi feito no passado. Eu não fazia a mínima ideia disso... David Bowie me surpreende novamente...

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O livro fechava justamente com o "Blackstar", de 2016. De todas aquelas letras tão diferenciadas e com clipes tão bem feitos e fascinantes, acredito que apenas com novos documentários e depoimentos de envolvidos na produção descobriremos ainda mais coisas que Bowie queria passar com seus últimos trabalhos. E sabe aquela impressão que eu escrevi lá no início do texto, quando eu era criança? Que o Bowie parecia com um ser fantástico que estava de alguma forma presente em vários cantos do universo, sempre surgindo quando você o encontrava para recompensá-lo com alguma informação ou algum item que você apreciava? Como colecionáveis de videogame? Fazendo um ano que ele morreu  e o conhecendo melhor que nunca volto agora a pensar a mesma coisa.

Mas não mais como uma impressão, mais como uma certeza.




I know something is very wrong
The pulse returns for prodigal sons
With blackout hearts with flowered news
With skull designs upon my shoes

I can't give everything
I can't give everything

Seeing more and feeling less
Saying no but meaning yes
This is all I ever meant
That's the message that I sent

I can't give everything
I can't give everything
Away
I can't give everything
Away

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