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terça-feira, 14 de novembro de 2017

15 HQs do Superman pra fazer pensar


"Façam o bem uns para os outros e todo homem pode ser um super-homem!" Superman

Acredito que seja claro para muitas pessoas como o Superman é popularmente conhecido como um personagem que seguindo suas raízes deve ser infantil, sem muito a adicionar além de lições de escoteiro. Mas quem dá a sorte de acabar "trombando" com algumas das melhores histórias do herói, ou tem alguém que lhe empresta ou recomenda de alguma maneira, nunca esquece como suas melhores aventuras vão além das lições de escoteiro. Nas mãos de bons autores Superman já valeu ouro, combinando nada com essa impressão maior de que ele deve ser unicamente um personagem infantil e descompromissado. Isso chega a ser uma contradição, pois muitas vezes as próprias HQs que fizeram mais sucesso no público infantil tiveram um comprometimento mais dramático com o leitor. Veja como, muito antes de virem Alan Moore e cia. escreverem HQs mainstream de teor mais adulto, Homem-Aranha e X-Men já conquistavam mais o público por seus carismáticos personagens envolverem discussões mais pertinentes com o mundo real.

"'X-Men' não é realmente sobre mutantes; é sobre a humanidade. Eu acho que é sobre a raça humana. Nós somos uma raça absolutamente destrutiva. Parece que nós não conseguimos chegar além desse nível de tribalismo que que está por aí há milhares de anos. Qualquer coisa que tememos nós tendemos a destruir." Michael Fassbender

Na DC Superman tem sua conterrânea Mulher-Maravilha que também é reconhecida dessa forma, mesmo suas HQs mais legais discutindo mitologia, política e sexismo. Mas acho que o melhor exemplo pra comparar é o Capitão América da Marvel. É muito comum as pessoas o verem com seu armário que esbanja as cores dos EUA (como a Mulher-Maravilha e o Superman) e de forma automática supor que deve ser um personagem clichê com intenções mais políticas do que artísticas. Muitas vezes é o contrário, e para a nossa sorte, diversos autores aproveitaram a liberdade que tiveram de usá-los para discutir ideias super interessantes!!! O Capitão América não começou a se rebelar contra o sistema com o Ed Bruebaker(vários arcos modernos), o Mark Millar(Guerra Civil) ou os irmãos Russo(filmes)!

"Esse escudo não deve se tornar parte de um espetáculo degenerado! Essa matança o tornará um símbolo de vergonha!"

Eu fiquei surpreso ao pegar um volume da coleção de capas vermelhas da Salvat focado no bom Capitão e ver como nas HQs criadas por Roger Stern e John Byrne no início dos Anos 80 o herói já era mostrado em momentos de reflexão e autocrítica. Ele se desapontava com a corrupção de seus superiores e ficava confuso com os valores que carregava, não era um soldado unidimensional. Uma das coisas que eu me lembro da minha infância são as várias vezes que eu via um semblante de tristeza no Capitão América. Uma expressão de quem gostaria de poder fazer mais, mas está tendo que encarar uma parte trágica da realidade. Isso era muito bom.


Quem sabe valha no futuro fazer um post desses com o Capitão também, mas hoje vamos focar no Superman! Clark Kent vive como um herói, um alienígena, um americano, um filantropo, um imigrante e um jornalista! Quando o longícuo planeta de Krypton explodiu, o cientista Jor-El e sua mulher resolveram colocar seu filho bebê em um foguete e enviá-lo para o distante planeta Terra, similar ao deles em algumas características, mas com a radiação do Sol amarelo conseguiria incríveis poderes, podendo se tornar um tipo de deus. O neném é encontrado por um casal de fazendeiros no Kansas que o criam preocupados em desenvolver sua humildade e moralidade, influenciando o alien a se tornar uma força do bem. Sendo elevado como ícone e atraindo vilões de todo o espaço, Superman já rendeu boas histórias sobre legado, idolatria e o potencial máximo. Vamos ver quinze delas...






15.A Conexão Einstein (Superman #416, 1986)

"Já é uma questão difícil o bastante em um mundo complicado decidir quem é um herói e quem é um vilão-- Mas quando a questão se torna 'quem é um herói para um vilão?' então nós entramos na bizarra realidade do sonho maluco de Lex Luthor-- e... A conexão Einstein!"

Essa história é interessante por tentar mostrar um lado mais humano do Lex Luthor de forma um tanto inesperada. Hoje é difícil ler essa história sem ter spoiler, mas ela merece o décimo quinto lugar. O Superman percebe que Lex Luthor tem fugido da cadeia sempre na mesma época do ano, e pelo ponto de vista do vilão percebemos que há algo de mais pessoal em seus objetivos. No final da HQ o herói nota a conexão das datas e percebe que é o aniversário do Albert Einstein, cujo qual Luthor nutre enorme admiração e sempre foge para prestar homenagem ao falecido físico. Fica claro que apesar de ser um psicopata, Luthor ainda era um cientista e tinha sua admiração pelo gênio de Einstein, algo que sua vilania não sufocou.


"Luthor é inegavelmente um gênio-- Assim como um terrível, terrível desperdício!"


14.Retorno a Krypton (Superman #18, 1988)

"E por mais que eu relute em admitir, temo que minha visão foi precisa. Uma raça de supermen não tem como evitar ser uma raça de conquistadores, mesmo que comecem com a melhor das intenções..."

Na consagradíssima fase de John Byrne, essa edição conta com a colaboração especial do desenhista Mike Mignola, criador do Hellboy. Junto com alguns colegas thanagarianos (Homem e Mulher-Gavião) Kal-El viaja para o espaço onde seu planeta-natal explodiu. Lá ele precisa usar uma roupa especial de proteção para não ser afetado por toda a kryptonita que flutua na superfície gravitacional do extinto planeta. Tomando coragem, o herói explorador viaja no que sobrou de onde veio e nisso começa a devanear vividamente, que é o foco da história. Superman vê uma realidade diferente onde mais kryptonianos teriam partido para a Terra e o que teria acontecido. A visão é perturbadora, principalmente por envolver seus pais biológicos e uma guerra civil entre sua própria raça. O personagem acaba então refletindo sobre superioridade e seus grandes poderes quando imagina uma situação de colonização, fascismo e revolução protagonizada por seus antepassados. A história celebra os 50 anos que o personagem fazia na época.

"Talvez eu precise da kryptonita, como um lembrete constante da minha própria mortalidade. Um lembrete constante de que ser um homem é sempre mais importante do que ser um super-homem..."



13.A Última Família de Krypton (2010)

"Essa noção persistente que eles se apegam que você é infalível... Mesmo em meio a uma catástrofe crescente que fortemente sugere o contrario... Se nada mais, isto é uma fascinante demonstração da capacidade humana de fé cega."

Este discute a mesma ideia de "Retorno a Krypton", mas é mais desenvolvido. Nesta realidade paralela não foi só Kal-El que foi enviado à Terra, mas seus pais também, ou seja, a última família de Krypton. Eles então vão desenvolvendo como seria o universo do Superman nessa versão. O exercício de criatividade se encontra nas personalidades de Jor e Lara-El. O pai de Superman é um cientista e sua mãe uma espiritualista, ambos vão causando grandes influências no mundo antes mesmo de seu filho Kal crescer e se tornar um salvador. São mostradas as mudanças na vida do Super e, consequentemente, também na de outros personagens, como Lex Luthor, Batman e Lanterna Verde. Com a presença física de seu pai, o jovem alienígena sofre uma pressão muito mais direta quanto ao seu destino do que as mensagens por cristais e hologramas que ele tinha nas versões mais tradicionais. Nisso há um conflito de ideais entre pai e filho, sendo discutidas as ideias de herança e destino.


"O que eu não acredito são nas respostas simples. Nada na vida é mais preocupante do que as questões. Tal conhecimento profundo tem que ser merecido. Confie em mim. Chegará um dia quando seus próprios instintos guiarão você para sua verdadeira vocação. Este é o fenômeno que os terrestres chamam de 'encontrar sua felicidade'."

É um grande exercício criativo como com a mera presença de mais dois personagens que aterrizaram na Terra com Kal-El todo o dilema do personagem Superman muda. O acerto foi o escritor Cary Bates escrever os pais dele com personalidades e influências bem fortes.


"Seu destino não é simplesmente seguir os passos de Jor-El."


12.O Último Filho (Action Comics#844-846, 851, Action Comics Anual#11, 2005)

"Você deve ser lembrado que foi mandado aqui porque se parece com eles-- Mas você não é um deles. Nossa cultura sobrevive com você. E a esperança que tínhamos por nosso futuro pode ser repartida com o povo da Terra através de você... o último filho de Krypton."

Em "O Último Filho" Superman intercepta um nave que aparece violentamente em Metropolis contendo um garotinho nu que fala kryptoniano e tem super-força. Nas outras edições ele descobre que se trata de um filho do General Zod gerado dentro da Zona Fantasma, como parte de um plano para dominar a Terra. Evitando que o menino seja abusado pelas forças do governo, Clark Kent e Lois Lane o adotam, nessa situação sendo exploradas as ideias de paternidade e de herança, tanto em relação ao filho do Zod, quanto ao próprio Superman que foi mandado do seu planeta extinto pelo pai, sendo o último herdeiro do lugar.

"Seu pai se sentiria um desgraçado ao ver você se mascarando como um desses sub-kryptonianos. Você abraçou a cultura deles e abandonou a sua."

O Zod atua não só como contraponto às ideias que Jor-El tinha quanto ao que era certo como conduta de ação, mas também em questões de paternidade, já que fica claro que ele e a Ursa são tão abusivos com o filho Lor-Zod quanto possível.

"Ele era um bom garoto com pais ruins."


Quando o Lex Luthor interage com o herói na trama, ele também desdenha dos benefícios que o kryptoniano traria pras pessoas.

"Você salta sobre prédios altos. Ultrapassa a velocidade de balas. Faz malabarismos com locomotivas. Como isso inspira alguém a se tornar um ser humano melhor?"


11.Para o Homem Que Tem Tudo... (Superman Annual#11, 1985)

"As pupilas não estão reagindo à luz. Ele está sendo privado de toda e qualquer sensação... Está num mundo só dele."

Alan Moore e Dave Gibbons. A dupla que fez "Watchmen" trabalhando em uma edição anual do Superman. É aniversário do herói, então Batman, Robin e Mulher-Maravilha vão visitá-lo em sua Fortaleza da Solidão. Ao entrar eles encontram o herói vítima da planta parasitária, clemência negra, que deixa a mente do hospedeiro presa em um mundo que ele considera perfeito. Vendo a alucinação em que ele se encontra, descobrimos então que um mundo perfeito do Superman seria justamente um onde ele não é o Superman, mas somente Kal-El, um trabalhador comum que vive com sua família e tem que lidar com problemas mundanos em um planeta de Krypton que nunca explodiu. Essa história é uma das principais que mostrou aos leitores uma parte muito triste da personalidade do personagem.


"-Papai, aquele é o vovô Jor-El! Por que ele está gritando sobre o fim do mundo?
-O mundo do seu avô chegou ao fim 20 anos atrás."


10.Precisa Haver um Superman? (Superman #247, 1972)

"Durante anos, tenho bancado o irmão mais velho da raça humana! Terei errado? Eles estão dependendo demais de mim... Com muita frequência...?"

O herói kryptoniano é invocado pelos Guardiões (criadores dos lanternas verdes) para discutirem como sua presença está sendo prejudicial para a evolução natural dos terráqueos. Mas na verdade, como sempre, os Guardiões não são honestos, e o que queriam era instalar a dúvida na cabeça do Kal-El, de que ele poderia estar com sua jornada super-heroica causando grande mal à Humanidade. Ao voltar pra Terra, o personagem encontra uma rebelião de trabalhadores rurais que estão revoltados por causa de abusos de autoridade. O herói resolve ouvir um menininho mexicano que quer explicá-lo calmamente o que acontece. Por ter vindo de outro planeta, o kryptoniano se identifica com o jovem imigrante.

"Vocês não entenderam! Nunca resolverão o problema jogando ele na mão de outra pessoa!"


"Vocês não precisam de um Superman! O que realmente precisam é da super-vontade de serem guardiões do seu próprio destino!"

Super os ajuda a resolver o problema com seus super-poderes, mas logo os alerta que devem aprender a se entenderem por si próprios, e não ficar esperando que alguém tome as escolhas por eles. Mesmo assim no final muitas dúvidas quanto ao seu modus operandi continuam em sua mente. A HQ é de uma época clássica, com o roteiro de Elliot Maggin e os desenhos de Curt Swan, que desenhou a revista por décadas, praticamente definiu a forma que reconhecemos o personagem.


"Me sinto melhor quando vejo uma criança sorrindo enquanto lê um gibi que eu desenhei do que se tivesse todo o dinheiro e fama do mundo." Curt Swan


9.O Preço (Superman#22, 1988)

"Bem vindo ao fim do mundo, Superman."

Essa história fecha a "Saga da Supergirl", com um momento bem marcante na trajetória de seu primo: a famosa cena em que ele matou friamente versões alternativas de Zod, Quex-Ul e Zaora, criminosos que estavam presos na Zona Fantasma e tinham destruído um mundo todo. Frente a tal tragédia, Kal-El escolhe ser duro e condenar os três à morte os expondo à kryptonita.

"Vocês três usaram seus poderes apenas para o mal. Esse é o caminho fácil. E enquanto estão sem poderes agora-- Vocês continuam sendo kryptonianos! O que eu preciso fazer agora é mais difícil do que qualquer coisa que já fiz antes. Mas como a última representação de lei e justiça neste mundo, cabe a mim agir como juiz, juri... e executor."


O acontecido não passa em vão, e o herói fica com fortes crises de consciência. Essa história foi justamente a última da famosa e respeitada fase do John Byrne, que deu ao personagem a cara quase que definitiva que ele veio a manter por muitos anos. Posteriormente outros roteiristas e desenhistas tomaram conta. Somado a um plano do Brainiac que criou o Predador, uma versão alternativa e destrutiva do Superman que sai do seu inconsciente quando ele não está desperto, o kryptoniano decide sair da Terra na história "Exílio", se despedindo de seus amigos e familiares para refletir isolado no espaço, onde não corre o risco do Predador ferir ninguém. Antes de ir embora ele tem uma conversa bem sincera com seus pais adotivos, Jonathan e Martha Kent.

"-Eu fui o juiz e o executor!
-Não se recrimine, filho! Eu estive no exército! Nos tempos de paz é fácil esquecer das maldades da guerra! Quando se está nela, é matar ou morrer!
-Eu deixei minha sede por vingança tomar o controle! Devia ter encontrado uma alternativa pra morte! Eu sou o Super-Homem!
-Mas ainda é um ser humano! E seres humanos não são perfeitos!
-Se eu descobrisse um modo de devolver os três pra Zona Fantasma...
-E se eles se libertassem e seguissem você até aqui? Talvez, agora todos nós já estivéssemos mortos!
-Um policial que mata no cumprimento do dever também se remói em dúvidas, Clark!"


8.Olho por Olho? (Action Comics #775, 2001)

"Os sonhos nos salvam. Nos elevam e nos fazem melhores. E, pela minha alma, eu juro... Até que o meu sonho de um mundo onde a dignidade, a honra e a justiça se torne uma realidade partilhada por todos... Eu nunca vou desistir de lutar. Jamais."

Acabou se tornando uma das HQs mais famosas do personagem, foi inclusive excelentemente bem adaptada na animação "Superman Contra A Elite". Há uma nova equipe de heróis estrangeiros chamando a atenção na mídia, eles possuem o curioso nome de "Elite". Como anti-heróis, eles são tremendamente cruéis e impiedosos, além de mais práticos que o velho Superman. Acaba rolando um conflito ideológico e o líder da Elite, Manchester Black, sempre se justifica contando as coisas traumáticas que aconteceram na vida deles como consequência de tiranos malignos, em contraste do Superman, que teve uma infância tranquila e amorosa com fazendeiros do Kansas. O debate proposto pelo escritor Joe Kelly é muito interessante, te fazendo pensar em termos de metalinguagem qual é o espaço de um herói com as intenções do Superman em um tempo que todas as HQs estavam ficando mais violentas e apelativas?

"Não sou idiota, Black. Sei que há homens maus no poder e que o mundo não é um lugar justo... Mas não se pode jogar a moralidade no lixo só porque a vida é dura."

O título foi adaptado para "Olho por Olho?" mas em inglês é mais específico: "What's so funny about truth, justice & the american way/O que há de tão engraçado sobre verdade, justiça e o modo de vida americano?", o que o personagem defendia quando foi criado.


Curiosamente, a HQ foi publicada alguns meses antes do ataque dos terroristas às Torres Gêmeas, que muito alterou a mentalidade dos estadunidenses. Talvez o melhor exemplo seja o Frank Miller, que passou a demonstrar um patriotismo inédito para o criador de HQs exemplarmente irônicas como "O Cavaleiro das Trevas" e "Por Deus e Pela Pátria", muitos passaram a considerá-lo até xenofóbico. Lendo hoje as ideias ainda soam atuais. Os desenhos foram de Doug Mahnke e Lee Bermejo, que viriam a ficar cada vez mais famosos. E falando no Frank Miller...


7.O Cavaleiro das Trevas (1986)

"Eles nos matarão se puderem, Bruce! A cada ano eles ficam menores... E a cada ano nos odeiam mais! Eles não devem ser lembrados de que gigantes caminham sobre a terra!"

O Homem de Aço tem uma participação importante e marcante no indispensável "Batman: O Cavaleiro das Trevas", do Frank Miller. A história se passa em um futuro distópico onde Batman e todos os outros heróis se aposentaram por razões que não ficam tão explícitas, mas dá pra notar que tem relação com intervenção do governo e as pessoas ordinárias se sentirem pequenas e acuadas ao lado de seres incríveis. Qual é o papel do Superman nisso? Ele aceitou as exigências das autoridades humanas e serve ao presidente dos Estados Unidos como um super agente secreto. Como seu velho amigo e parceiro, Batman, resolveu retornar sendo considerado uma grande ameaça pelo presidente, Superman então tem que entrar em conflito direto contra uma versão mais velha e rancorosa do Bruce Wayne.


Não é apenas o lado político que fica representado. De forma poética, Frank Miller escreve um Superman que tendo tamanho poder se comunica diretamente com a mãe-natureza, sendo considerado pela Terra um filho adotivo. 

"A senhora tem toda razão de estar ultrajada, Mãe-Terra! Deu a seus filhos tudo... Esses filhos mesquinhos, idiotas e perversos! Mas, por favor... Ouça o que eles têm a dizer!


Apesar de toda a banalização que o público trata essa representação do personagem unicamente pelo fato dele lutar contra o Batman (inclusive dizendo que ele perdeu a luta, sendo que ele nem perde), Miller trabalhou o ícone de maneira inteligente e grandiosa, como fez com tantos outros personagens no auge de sua carreira.

"Poderíamos ter mudado o mundo... Agora... Olhe só para nós... Eu me tornei... Um risco político... E você... Você, uma piada..."


6.Paz Na Terra (1998)

"Não cabe a mim ditar a política para a humanidade. Mas, se eu combater a fome em escala global, talvez inspire outros."

"Paz na Terra" faz parte de um quarteto de histórias onde o escritor Paul Dini se uniu ao famoso ilustrador Alex Ross para colocar os principais heróis da DC (Mulher-Maravilha, Batman, Superman e Capitão Marvel) lidando com problemas reais da Terra de forma realista e sensível. O objetivo era passar uma mensagem de compaixão e esperança. Na HQ é Natal, uma época que inspira muito o herói kryptoniano, o deixando pensativo e sentimental. O herói percebe uma garota que está passando mal de fome e vai ajudá-la.

"Sozinho no Departamento de Pesquisas, leio tudo sobre a fome mundial. Quero saber o que puder sobre suas causas, efeitos e possíveis soluções.  Absorvo volumes de informações e estatísticas num piscar de olhos. As fotos, contudo, eu contemplo por mais tempo. É irônico, eu não preciso comer. Nunca vou saber o que é fome. Nem imagino o que sentem as vítimas de desnutrição. Não sei se isso é uma benção ou uma maldição."

Isso o faz pensar em como o problema é comum em escala global e o inspira a tentar fazer a diferença. O herói então visita vários pontos do mundo, inclusive as favelas do Rio de Janeiro, levando grandes quantidades de comida para lugares necessitados. Tudo é passado de forma imensamente convincente, já que Alex Ross é a maior referência de hiper-realismo no mercado.


"Eles concordam que a fome é uma preocupação mundial e me asseguram que estão fazendo o máximo para ajudar. Respeitosamente, lembro a eles que existem outras alternativas. Colheitas estão sendo abandonadas nos campos, grãos apodrecem nos armazéns. A América produz mais comida do que consome, mas não cria meios para transportá-la até os famintos. Peço para distribuir esse excedente ao redor do mundo para tantas pessoas quanto possível em um único dia."

A história então se trata desse dia quando o ser mais poderoso da Terra decidiu enfrentar a fome. O herói vai entrando em contato com as diferentes culturas e descobrindo sobre elas e as pessoas, já que em cada lugar que ele vai as reações são diferentes quanto à surpresa. A história não parece tomar partidos, sendo bem convincente em desenvolver o tema sugerido: o Superman enfrentando a fome no mundo.

"Tentei aliviar a fome do mundo, mas encontrei uma pobreza lancinante, não somente nas favelas e terras áridas, como também nas almas de homens egoístas."


"Se houver uma solução para o problema da fome, ela deverá vir do coração do homem para seu próximo. Como diz o velho ditado: 'Se você dá um peixe a alguém, ele come por um dia. Se você o ensina a pescar, ele tem alimento para a vida inteira.' Essa simples mensagem pede para o homem que evolua com sabedoria, ajude os necessitados e inspire os outros a fazer o mesmo. Este é o maior desafio e mais precioso presente da vida. Peço a todos que compartilhem o que tiverem com aqueles que precisam. Seu conhecimento. Seu tempo. Sua generosidade. Especialmente com os jovens, pois neles está o nosso futuro. E toda a esperança de uma verdadeira paz na Terra."


5.O Que Aconteceu Ao Homem de Aço? (Superman #423 e Action Comics #583, 1986)

"Superman morreu dez anos atrás. Esta é uma HISTÓRIA IMAGINÁRIA... E não são todas?"

Vale a contextualização. Em 1986 a DC estava se preparando para reiniciar os seus títulos, tornando tudo mais moderno e simples para novos leitores. A longa linha de quase 50 anos de histórias do Superman então estava prestes a ser terminada para começar o famoso reboot do John Byrne. Era a oportunidade de traçar uma conclusão para o personagem e toda sua mitologia, já que iam recomeçar tudo. Uma última história do Superman como se fosse realmente a última para sempre! O editor Julius Schwartz logo pensou que o homem perfeito para escrever esse trabalho era Jerry Siegel! O próprio criador do personagem! Mas graças à problemas legais, eles não tinham tempo para resolver a burocracia necessária e ter o próprio escritor original do herói criando seu final. Então eles seguiram para a segunda melhor opção... Alan Moore.


A trama começa dez anos após a morte e o desaparecimento do Superman, com um jornalista indo entrevistar Lois Lane em sua casa sobre os últimos dias do herói para uma homenagem do Planeta Diário. A ex-jornalista lendária agora é casada e se chama Lois Elliot. Os últimos dias do herói então são contados, quando vários de seus antigos inimigos retornam com bastante violência. Apesar do tom infantil, com personagens como o Super-Cão e Mestre dos Brinquedos, Alan Moore não evita o tom pesado que costumam ter suas histórias, com logo no início o vilão Bizarro cometendo suicídio em uma crise existencial de monstro de Frankenstein. O desfecho da mitologia do herói é então narrado com muita seriedade, provavelmente por isso sendo considerado o desfecho definitivo, mesmo com todas as histórias que vieram depois.

"-Bem, imagino que devo começar indagando sobre os anos que precederam imediatamente o desaparecimento e a suposta morte do Superman. Foram dias felizes?
-Felizes? Não sei... Foram uma mescla de coisas, como costumam ser os períodos da nossa vida..."


O Alan Moore sabe passar sensibilidade com muita competência pras suas histórias, sejam infantis ou adultas, então o conflito do Superman por estar pressentindo seu fim impacta muito o leitor. Apesar de serem apenas duas edições com um roteiro consideravelmente simples, vale a pena deixar "O Que Aconteceu ao Homem de Aço?" em sua elevada posição de quinto lugar, pois além de tratar muito bem a mitologia do personagem e sua personalidade, é um exemplo de jornada do herói, já que mostra o final de um dos heróis mais famosos que já existiu na cultura mundial. Tendo sido feita por um escritor tão bom com o já mencionado desenhista Curt Swan, o resultado é excelente, sendo difícil não refletir sobre a trajetória do kryptoniano após a leitura da aventura que o despediu literalmente.

"Por que justo as pessoas mais nobres são as mais atormentadas pela consciência?"


Outro ponto muito marcante é a sinistra aparição do vilão Mister Mxyzptlk, ser de outra dimensão que pode alterar a realidade com magia. Moore fez uma interpretação existencialista do outrora cartunesco personagem que chega a ser assustadora.

"Eu sou imortal, como todos os demais na Quinta Dimensão. O maior problema de ser imortal é ocupar o tempo. Por exemplo, eu passei os dois primeiros milênios da minha vida fazendo absolutamente nada. Eu não me movia... Nem mesmo respirava. Por fim, a simples inércia tornou-se cansativa. Então passei os dois mil anos seguintes sendo santo e benigno, só realizando coisas benfazejas. Quando essa novidade começou a perder a graça, decidi tentar ser travesso. Agora, dois mil anos mais tarde, estou entediado de novo. Preciso mudar. A partir de sua morte, eu passarei os próximos dois milênios sendo maligno! Depois disso, quem sabe? Talvez eu tente me sentir culpado, pra variar. Sinceramente, vocês acharam que um feiticeiro da quinta dimensão teria aparência de um homenzinho engraçado com chapéu-coco? Gostariam de conhecer minha verdadeira aparência?"


"Eu coloquei tudo ali - Krypto e Bizarro -, todas aquelas coisas que amava, porque elas me pareciam repletas de imaginação e energia. Eram ideias maravilhosas e estranhas." Alan Moore


4.Pelo Amanhã (Superman#204-215, 2004)

"E se o que houve com Krypton... Acontecesse com a Terra? Você faria um foguete para salvar nosso filho?"

Mesmo não sendo a série mais amada do Superman, não tinha como não deixá-la no alto da lista. O roteirista Brian Azzarello escreve intencionalmente com reflexões constantes! É a característica mais marcante na identidade de "Pelo Amanhã". Logo a primeira parte tem o Superman se confessando ao padre Leone com relação a um acontecimento grave, mas não explícito, que teria acontecido há um ano na Terra enquanto o herói viajava no espaço. Os diálogos de confissão são constantemente pessoais e filosóficos. Os personagens secundários por si só já são bem reflexivos. Na segunda parte é mostrado o Superman migrando pra uma zona de guerra. Bravo, o herói usa seus poderes para cessar a guerra imediatamente, e isso leva a mais ponderações.

"Invasores de marte, monstros à solta, cientistas malucos, robôs gigantes... bichos-papões, ogros no armário... Eu sempre tentei mostrar a vocês que havia nada a temer... Que o medo estava na mente. Mas aí vocês me mostraram que a maior ameaça à humanidade... Está no coração de vocês."


Se trata de uma revolução contra um governo autoritário em um país não determinado do Oriente Médio. Em pouco tempo Super percebe que não há uma boa divisão entre heróis e vilões naquela guerra, começando a considerar que está vivenciando o puro mal. As intervenções que ele faz o levam a ser crucificado pela mídia e o conflita com a Liga da Justiça, em especial os dois principais: Batman e Mulher-Maravilha. Mas antes de confrontar os heróis mais diretamente, a própria mãe-natureza é representada por quatro avatares colossais que vêm destruir o Superman como resposta ao envolvimento que ele teve no desaparecimento de tantas pessoas da Terra. Diferente da forma que ele é mostrado com a natureza no "Cavaleiro das Trevas", aqui a relação é o oposto, se posicionando para enfrentá-la. É marcante a forma que ele ameaça todos os quatro elementais:

"Eu vou queimar seu ozônio... Dissipar sua atmosfera... Vaporizar seus mares... E o despedaçar com as mãos nuas... Vou dispersar os quatro... E vocês deixarão de existir."

"A Terra gira há bilhões de anos, e parece há muito ter esquecido que é mortal."
A partir da metade, o protagonista começa a lembrar de seu pai, e comparar o que faz salvando o mundo, com a escolha que ele fez, salvando o filho da destruição de um mundo. Quando as explicações se desenrolam e Kal-El descobre o que aconteceu com todos os desaparecidos, as explicações para tudo ter sido um grande mistério são muitíssimo ruins, mas o escritor mantém o tom reflexivo levantando dúvidas constantemente quanto ao personagem, trazendo muitos pontos interessantes sobre sua própria origem. No que se trata do destino que Krypton teve, na salvação do Superman enviado pra Terra e até a criação da Zona Fantasma que Jor-El havia feito, é relatada a ideia de estar nestes papeis de criador, de quem toma tais escolhas sobre vida e morte. Trata sempre das noções de , paraíso e inferno, afinal, um dos principais personagens é o padre Leone. O final é meio confuso, pode não ser uma história perfeita, mas sem dúvida é uma HQ do Superman pra fazer pensar.


"Por que viver para salvar mundos... Quando foi o fim de um mundo que me criou?"


3.Grandes Astros

"Quando Superman resgatou nossa missão para o Sol, foi exposto a mais radiação solar do que sua estrutura celular era capaz de suportar. Desde o princípio, a intenção de Lex Luthor era matar Superman usando o próprio Sol."

Nessa história o Lex Luthor logo na primeira edição consegue atacar o Superman de uma forma que ele aparentemente vai morrer. Após muitos esforços em busca de uma solução, parece melhor começar a organizar o legado. Nas primeiras edições o que ocorre são histórias homenageando aventuras antigas usando vários conceitos malucos de ficção científica de forma inesperada. Quando há problemas com o planeta Bizarro e todos seus habitantes, começa a haver um pouco mais de profundidade. Há um habitante, o Zibarro, que nasceu com defeito, não dizendo e fazendo tudo ao contrário, como os outros bizarros. Ele então é excluído, se destacando entre os outros, mas se sentindo extremamente deprimido. Disso surgem alguns diálogos interessantes sobre não se encaixar.

"...eu sou tão solitário aqui. Não há ninguém pra conversar. Nenhuma forma de inteligência para eu comunicar meus pensamentos e sentimentos! Você consegue imaginar como é ser tão diferente? Tão único! Tão diferente de qualquer outro. Deve apenas Zibarro ver beleza no pôr do Sol? Deve apenas Zibarro procurar poesia nesse vai e vem sem sentido?"

" Sei que você se acha um fracasso. Uma imperfeição. Mas você é algo mais, Zibarro. Você é a prova de que o planeta Bizarro está se tornando mais inteligente. Por qual outro motivo este mundo, este organismo incrível, criou olhos como os seus pra ver beleza e significado onde os outros vêem caos?"



Quando Superman volta do planeta Bizarro, encontra na Terra um casal de kryptonianos que foram os primeiros astronautas de Krypton e haviam ficado perdidos no espaço todo esse tempo. Assim como em outras histórias mais antigas, eles mostram os outros kryptonianos com a ideia de uma raça superior que quer, em contraste ao Superman, impor sua superioridade contra os terráqueos.

"Isso não é justo. Que direito eu tenho de impor os meus valores sobre os de outros?"

Claro que o herói consegue superar os poderes e a arrogância dos inimigos, não só os superando fisicamente, como também justificando seu modo de ser e sua visão moral.

"Você tem razão quanto a uma coisa. Eu sou o filho de um cientista. É da minha natureza observar e aprender... E não interferir demais."


Por fim o herói já está muito mais fraco com a proximidade da morte e dentro da sua mente é apresentado um meio termo científico e religioso da vida após a morte.

"Matéria, energia: essas coisas não podem ser criadas ou destruídas... Nem podem ser conscientizadas, Kal-El. Depois da morte corpórea, como os estudos de Neaconlab confirmam, a consistência individual persiste durante algum tempo e constrói para si palácios de pensamento ou complexos infernos para habitar... Aqui, a escolha é simples. Permanecer no jogo dentro de um campo de vida, consciência líquida. Ou retornar e encarar o mal uma última vez."

Na história Superman se desafia a construir vida, e realmente consegue criar uma pequena Terra cúbica. Em um paralelo com as pessoas desse planetinha, Morrison mostra como o conceito do Superman se desenvolve na construção de uma civilização por meio de crenças, mitos e arquétipos. Ao final, acabam sendo levantados vários pontos interessantes quanto a quem é o Superman em seu momento final.


"Que vida! Viajei através do espaço. Vi e fiz coisas além da imaginação. Abençoado com amigos como Pete, Lana e Jimmy. E o Batman... Que aventuras incríveis compartilhamos. Que pessoas espetaculares conheci."


2.Reino do Amanhã (1996)

"Eles não lutam mais pelo o que é certo. Eles lutam simplesmente por lutar, seus únicos inimigos são uns aos outros."

"Reino do Amanhã" foi o trabalho de Alex Ross junto a Mark Waid para homenagear "Twilight of the Super-Heroes", super-saga planejada por Alan Moore para contra-atacar as "Guerras Secretas" que a Marvel havia lançado com enorme sucesso na época, e provavelmente superá-la. Graças aos desentendimentos com os editores após o lançamento de "Watchmen", Alan Moore pediu demissão e a mega-série nunca viu a luz do dia, com "Reino do Amanhã" nos anos 90 tendo a intenção de trazer alguns dos fatores que ela exploraria. A história começa com a morte de Sandman e o pastor Norman McCay é visitado pelo Espectro em sua igreja e convidado para ver acontecimentos de um futuro próximo (2020) que refletem as profecias do livro bíblico do Apocalipse, ao qual a história faz paralelo o tempo inteiro. Acaba sendo uma versão DC Comics do livro do Apocalipse.

"A forma que você foi embora? Eu sempre pensei que você tinha medo de mim. Muitas pessoas pensaram. Mas não era isso. Você tinha medo... Que eu fosse o homem do amanhã. Você tinha medo do futuro que eu representava."
Com exceção do Batman e do Flash que agem de forma quase anônima lutando contra o crime de suas áreas, todos os heróis clássicos se retiraram. O Superman em particular havia começado esse movimento quando um herói mais violento havia resolvido um problema matando o Coringa publicamente, e para a surpresa de Superman ao tentar levar Magog pra cadeia, a opinião pública estava contra ele e a favor do anti-herói. Tanto Mark Waid quanto Alex Ross são extremamente tradicionalistas com seus trabalhos em quadrinhos, e criticam a forma que as HQs estavam ficando apelativas e estúpidas nos anos 90 (lembre que Rob Liefeld era um fenômeno na época).

"Isso não são heróis! São malucos! Estão prontos para lutar por território-- Sem se preocupar com quem é pego entre eles!"

Nessa metalinguagem implícita já pega carona o tema da passagem de valores de uma geração para outra. Fica claro como as atitudes da nova geração de heróis são irresponsáveis e não correspondem com o que a Liga da Justiça queria transmitir no passado. Eles apenas saem combatendo uns aos outros sem que haja qualquer significado por trás, querem apenas parecer como eram os heróis de antigamente. Tudo é feito de forma que parece muito pertinente com as nossas questões reais, a breve frase que foi citada acima, por exemplo, se trata de super-seres que estão lutando de forma que representa as sangrentas guerras civis que houveram dentro dos Estados Unidos.

"Mas nós temos o fogo da juventude do nosso lado. Os filhos e filhas de muitos dos integrantes da Liga da Justiça vieram nos apoiar."
Superman percebe que quando resolveu voltar com alguns de seus velhos colegas, a situação já estava muito caótica, mesmo ainda podendo vencer qualquer um com seus poderes, ele nota que inspirar as pessoas e influenciar a opinião pública já seria uma história completamente diferente. Simplesmente resolvendo as coisas da forma que consegue, Superman já começa a causar medo nas pessoas, mesmo suas intenções sendo boas. A Mulher-Maravilha, outrora uma embaixadora da Paz, tem um posicionamento muito mais forte do seu lado de guerreira, graças à mudanças que seu status com as amazonas sofreu.

"-Nós não deveríamos ter que lutar tão duro.
-Diga por si mesmo, Kal. Nós fazemos o que temos que fazer.
-E ainda assim, estamos ficando com mais reféns do que convertidos. 
O que nós fazemos com os que se recusam a ver a luz?"

"Nós não iremos mais impor nosso poder sobre a humanidade. Nós conquistaremos sua confiança..."

O Batman e os outros heróis que eram humanos habilidosos, mas sem poderes extra, não gostam nada da maneira como o kryptoniano segue, parecendo para eles que um regime fascista é apenas uma questão de tempo. Isso forma várias divisões em grupos de acordo com os ideais que os envolvidos acreditam, o que é extremamente bem mostrado, mesmo sendo uma curta série de apenas quatro edições.

"-Há medo nessa sala.
-Não. Uma validação do medo. Há muito tempo esses mortais suspeitam que não são mais capitães do destino do homem. As suspeitas acabaram de ser confirmadas."



O Superman não fica acima desses problemas, muito pelo contrário. Dúvida o assola durante a história inteira, com cada passo que ele dá sendo constantemente uma perturbação, pois a situação é extremamente delicada e perigosa, uma panela de pressão constante. Isso faz com que na trama pessoal do protagonista fique um ar de ponderação relacionado ao quanto foi adequado abandonar as pessoas e os heróis quando os ideais não batiam mais com os dele.

"Ouça-me, Clark. De todas as coisas que você pode fazer... Todos os seus poderes... O melhor sempre foi sua sabedoria instintiva... De certo... e errado. Foi um presente da sua própria humanidade. Você nunca teve que questionar as suas escolhas. Em qualquer situação... Qualquer crise... Você sabia o que fazer. Mas no minuto que você tornou o super mais importante que o homem... O dia que você decidiu dar as costas para a humanidade... Isso te custou completamente o seu instinto. Isso levou seu julgamento embora."

O foco do post é o Superman, mas vale ressaltar como Batman, Mulher-Maravilha, Lex Luthor e vários dos personagens terciários como Aquaman, Espectro e Flash são mostrados de formas muito curiosas também. Compete em ser a história máxima do Universo DC.


"Um homem com visão telescópica não consegue ver o mundo ao seu redor?"


1.Entre a Foice e o Martelo (2003)

"Eu jamais fui um soldado. Um soldado sempre segue ordens. Um soldado conhece e odeia seu inimigo. Um soldado só luta e morre pelo seu povo... Eu simplesmente lutava pelo que era certo."

A proposta de "Entre a Foice e o Martelo" é de que o foguete que trouxe Kal-El aterrizou na Terra com algumas horas de diferença do que na versão original. Essas horas de diferença fizeram com que ao invés de cair no Kansas, em Smallville, Kal-El caiu na Ucrânia, no território da União Soviética, base do lado socialista que viria a marcar a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria. Quando revelado como um simpatizante do regime comunista, o mundo percebe que a esquerda da guerra possui a melhor arma possível.

"Hoje, as autoridades soviéticas forneceram ao mundo fotos governamentais de um indivíduo uniformizado mais eficaz que nossa bomba de hidrogênio... Um super-homem alienígena comprometido com os ideais comunistas cuja própria existência ameaça alterar nossa posição como potência mundial para sempre..."

A partir daí, toda a história do mundo e do Universo DC é diferente. A Marvel ficou famosa por ter uma linha e até um nome para histórias que apresentam possibilidades paralelas, se chamando "O Que Aconteceria Se...?". A DC não possui um nome próprio que tenha marcado tanto para suas histórias com esta proposta, mas "Entre a Foice e o Martelo" é um dos melhores representantes de realidades paralelas conhecido.


O próprio ditador Stálin aparece como mentor do kryptoniano, cuja personalidade permanece a mesma: ele é o Superman, um cara que quer fazer a coisa certa. A diferença (absurda) são as influências do regime onde foi criado, ao invés do modo de vida americano que ele antes defendia, agora são os ideais marxistas. Mas o herói não se torna um novo Stálin; pelo contrário! Ele se opõe às mortes e à fome que caracterizavam seu regime. Quanto aos outros coadjuvantes, Millar faz uma versão russa de Lana Lang (velha amiga e primeira namorada do kryptoniano), mas de resto, no outro lado do globo todo o elenco de Metropolis continua lá: amigos e inimigos. Há diferenças conforme eles nunca conheceram Superman e Clark Kent de perto, no lugar disso o tendo como um grande inimigo do outro lado da guerra.


"Você é o oposto da doutrina marxista, Superman. A prova viva de que nem todos os homens são iguais."

Logo na primeira edição a história não demora em cativar mostrando como fica todo o resto do Universo DC nesse mundo onde o Superman é um comunista. Aparecem Batman, Mulher-Maravilha e o mundo das amazonas, Lanterna Verde e uma brevíssima aparição do Dr. Silvana, arqui-inimigo do Capitão Marvel. Uma grande parte dos vilões também deixa sua marca, como o alien colecionador de mundos, Brainiac, que ao invés de ter uma versão reduzida da cidade de Kandor, tem uma de Stalingrado.


Com a fácil vitória da União Soviética na guerra, o que vem depois é muito diferente.

"Liguem pros laboratórios S.T.A.R. e coloquem o Dr. Lex Luthor na linha. A Guerra Fria acabou de evoluir e se tornar um novo animal."

Diana Prince e Hipólita simpatizam muito mais com os ideais russos do que os dos Estados Unidos quando vão mandar a Mulher-Maravilha como embaixadora da paz para o mundo dos homens. O Batman tem na sua caverna ícones do quase completamente falido capitalismo como enfeites. Quase todo o planeta vira comunista, com a exceção do Estados Unidos que resiste muito bem por causa da ajuda de Lex Luthor, que se esforça em manter a rivalidade contra o Homem de Aço. O personagem tem sua inteligência superior retratada de forma bem caricata pelo escritor. Apesar de todo o comprometimento com referências científicas e políticas que tornam a história mais crível, ele toma "licença poética" para deixar o intelecto do Lex Luthor surrealmente exagerado. Apesar do tom de falta de seriedade que faz uma descontração com o resto da história, essa é uma das representações do personagem mais divertidas de acompanhar.


"Por que deveria o fato de eu ter nascido com privilégios me qualificar como líder do partido socialista? Sinto muito, camaradas, mas a ideia por trás disto está em completa contradição com tudo que fomos criados para acreditar."

Em "Entre a Foice e o Martelo" os personagens envelhecem cronologicamente e isso marca bastante diferença na história. Chega um momento que o Superman é chamado para se tornar o presidente, o que ele faz meio contrariado, deixando explícito seu desejo de apenas ajudar as pessoas, sem se tornar político para isso. Não demora e Superman faz todo o necessário para resolver os problemas, se tornando um exemplo de ditador.

"Moscou operava com a mesma precisão de um relógio suíço, como era evidente em todas as outras vilas e cidades de nossa União Soviética global. Não havia adulto sem emprego, todas as crianças gozavam de um hobby e a população inteira desfrutava das oito horas completas de sono que seus corpos requeriam. Crime não existia. Acidentes não aconteciam. Nem mesmo chovia enquanto Brainiac não estivesse plenamente convicto de que todos levavam um guarda-chuva."


Enquanto isso Lex Luthor consegue chegar à presidência e as características exageradas de sua atuação continuam.

"O presidente Luthor interrompeu relações comerciais com o resto do mundo em janeiro de 2001 e criou um rígido mercado interno onde exercia controle absoluto sobre todas as células de dólar. Em fevereiro ele havia dobrado os índices de padrão de vida de cada cidadão americano e repetiu a proeza em março. O mês de abril assistiu a um rápido retorno ao pleno emprego. Em maio, erradicou-se o problema de falta de moradia nos 34 estados ainda sob o comando da Casa Branca após a lamentável guerra civil de 1986. O dia primeiro de junho marcou o retorno dos 16 estados pródigos. Em meados do primeiro ano de sua administração, a América tinha uma economia vibrante, uma população feliz e um presidente com a inédita marca de 100% de aprovação dos pesquisados."


"-O Superman pode ser um doido com síndrome de messias, mas você não acha que corremos o risco de trocar um demagogo por outro?
-É bem provável, querida. Mas, pelo menos, Lex Luthor é um demagogo que fala inglês."

Até o seu desfecho a história mantém todas essas características, realmente conseguindo fechar um ciclo ao final. Pra uma história tão curtinha, dividida em três partes, "Entre a Foice e o Martelo" não te enrola em momento algum e traz uma montanha-russa de surpresas e reflexões interessantes. O intuito do Mark Millar era claramente mais criativo do que político, já que o que mais marca são surpreendentes desenvolvimentos de utopias e distopias. A personalidade do Superman na posição que se encontrou também ficou muito bem trabalhada, contando com momentos muito marcantes que definem o personagem, mesmo sendo uma história de realidade paralela, o que faz dela um item indispensável para os que gostam do Homem de Aço.

"A decisão agora é simples... Pretende enfrentar violência com violência ou permitir que essa gente destrua tudo que você já realizou?"

O que poderia muito bem ser um caça-níquel se revela claramente um exemplar de para o que servem as melhores histórias em quadrinho: exercícios de criatividade, nos fazer pensar. Portanto, parece muito merecedora do lugar que ocupa fechando esse post!


"Graças a Deus que Mark Millar não é um escritor limitado. E graças a Deus que sua cor favorita seja o cinza." Tom Desanto

Este foi o "15 HQs do Superman pra fazer pensar"! O post ficou inevitavelmente muito grande, portanto optei deixar minhas opiniões pessoais em outro, que deixo linkado aqui. Agradeço pela sua leitura, espero que tenha gostado e agradeço também se puder compartilhar com outros que apreciariam o post! Grande abraço!

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