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sábado, 15 de outubro de 2016

COLEÇÃO HELLBOY - PARTE 1


"Provavelmente o único herdeiro honesto aos trabalhos de suspense de Jack Kirby dos Anos 60." The Comics Journal

Como já introduzi esse especial em outro post, farei um texto mais pessoal no início. Eu conheci o Hellboy pelo filme do Guillermo del Toro. Claro que, como um garoto dos Anos 90, eu via o personagem por aí, aquela carona brava vermelha com os olhos que pareciam ter sido rabiscados. Mas eu só fui conhecer mesmo vendo o filme que meu tio tinha. A princípio me dava medo aqueles monstros, mas vendo com a família era de boa e eu acabei curtindo no final das contas. Era mais uma boa adaptação de HQ em filme de ação como Homem-Aranha, Blade e X-Men. Em 2008 fui surpreendido com um segundo filme. Apesar do tom bem diferente do primeiro, eu saí apaixonado, tinha nada pra reclamar. Ação, o romance, o humor, estava tudo na dose certa e eu relembrava daquele personagem que eu tanto havia curtido anos atrás. E olha que no mesmo ano saíram vários filmes ótimos de super-heróis de HQs: "Batman: O Cavaleiro das Trevas", "Homem de Ferro" e "O Incrível Hulk". As animações e games não eram tão bacanas, então eu resolvi que queria conhecer aquele Hellboy "rabiscado" dos quadrinhos.


Foi um objetivo meio adiado pelo alto preço dos encadernados. Eu até tinha vontade de conhecer as HQs, mas por 60 reais vinha o medo de eu me arrepender, então eu priorizava comprar tudo do Batman que tava em uma fase fodida com o Paul Dini, o Grant Morrison e encadernados do tio Loeb que eu gostava cada vez mais. Quando finalmente li HQs do menino do inferno pela primeira vez houve um sincero estranhamento. Primeiro que eu tinha estranhado o tom de comédia no segundo filme (na época não era normal ter piadinha o tempo inteiro) e o gibi era mil vezes mais zuero. Também era bem simples, não demonstrava grandes pretensões, o que me desapontava um pouco visto como o clímax dos filmes me deixava ligado. Não era uma HQ com boas técnicas de narrativa de ação como Hulk, Homem-Aranha e Wolverine, era bem mais tranquila. A curiosidade continuou e com o tempo eu me acostumei e entendi.


Quando fazia análises de encadernados da Salvat e da Eaglemoss, eu cheguei a explicar isso aqui. Eu recomendava as HQs de acordo com um suposto leitor médio padrão que, como eu, iria na banca encarar um monte de encadernados caros e ter que escolher apenas um pra comprar. Nesse ponto de vista, quase tudo de caras como John Byrne, Chris Claremont, Stan Lee ficava com o selo "dispensável". Se um leitor médio atual ler o Superman do Byrne ele pode achar bem sem-graça. Por que? Porque é ruim? Não, porque é velho! Como ver um filme ou ler um livro velho, a narrativa está ultrapassada mesmo. Me parece muito mais sensato recomendar algo mais atual de caras como M. Millar e G.Johns, a não ser que se trate de um escritor com técnica muito atemporal, como F.Miller, mas se houvessem muitos Frank Millers por aí ele não seria o Frank Miller...

Frank Miller e Alan Moore disputando uma queda de braço

Em um post de recomendações de encadernados todos do Hellboy receberiam o "dispensável". Não se trata de um gibi moderno. Não, ele é representante de toda uma fase que houve nos Anos 90 de autores tentando resgatar a sensação que as clássicas aventuras feitas por Jack Kirby e companhia tinham no início dessa nerdice toda. Uma sensação que estava se perdendo. Até o Alan hipster Moore foi nessa, só ver trabalhos inacreditáveis que ele fez com a Image e ABC: Tom Strong, Supremo e Top 10... Hellboy é ao mesmo tempo uma homenagem aos trabalhos clássicos do Mestre Kirby e usa uma série de expressivas referências literárias de clássicos do terror, como H.P. Lovecraft, entre outros.  Some isso com a arte de Mignola, que inspira ilustradores do mundo todo... Pra quem é fã de Jack Kirby e terror... Hellboy é indispensável.


POSTS DE ANÁLISE ANTERIORES



Sementes da Destruição


"Se pelo menos este lugar tivesse um nome... Ou se o povo do vilarejo falasse sobre ele... mas não fala. Nem o fato de saber que pode haver soldados nazistas rondando a região fez as pessoas falarem. Elas nos olharam como se nazistas fossem a última coisa do mundo com que se preocupar."

Aqui nasce o personagem. A colaboração de John Byrne com Mignola é expressiva, "Sementes da Destruição" tem um tom um pouco diferente das outras aventuras do Hellboy. A arte de Mignola unida à coloração do Chiarello prova que eles estão entre os melhores no que fazem. O melhor detetive paranormal do mundo sai junto de seus parceiros Abraham Sapiens e Elizabeth Sherman para investigar um estranho caso de sapinhos que estão matando pessoas. A investigação acaba levando a um problema muito mais fatídico: a revelação de Rasputin e o Ragna Rok. Nisso vão sendo contados a marcante origem e o simbólico destino do Hellboy. Passa de uma aventurinha simples pra um tom de introdução grandiosa. Para os que já viram o primeiro filme, é aquela mesma história.





Os Lobos de Santo Augusto


"Vá embora, padre. Vá para casa. Deus não está aqui. Ele esqueceu este lugar."

Junto a Kate Corrigan, uma professora universitária especialista em folclore e ocultismo, o detetive vermelho vai ao vilarejo de Santo Augusto investigar um caso de assassinatos brutais. Como o título dá a entender, há envolvimento de lobisomens. É extremamente característico o tom da estória, uma das narrativas mais sombrias e violentas de Mignola, em "Os Lobos de Santo Augusto" não há qualquer senso de humor. Hellboy vai conhecendo uma pesada maldição que foi colocada sobre a família real, criando lobos humanoides sanguinolentos e nem um pouco fáceis de serem vencidos.



                       

O Caixão Acorrentado


"Você sonha, Abraham? Eu sim. Eu sonho pra caramba."

Durante toda a série a origem do Hellboy é recontada várias vezes. Mesmo fazendo pouco tempo em "Sementes da Destruição", o "Caixão Acorrentado" mostra uma outra perspectiva com uma atmosfera extremamente sombria. A narrativa tem vários paralelos. Tudo começa com o Hellboy contando uma experiência que passou por meio de uma carta para seu amigo Abraham, então você entra em um verdadeiro pesadelo conforme Hellboy vai vivenciando uma noite do passado entre um demônio e uma bruxa... Noite essa que levou à sua criação. O legal dessa estória é que ela é curtinha e bem eficiente, passa uma atmosfera desoladora que transmite bem como o destino do personagem o perturba.




                       

O Cadáver


"Isto é um velho jogo, e tenho que jogar do jeito deles."

Na Irlanda, em 1959, Hellboy precisa lidar com os homúnculos para ajudar um casal de camponeses a reaver a sua filha. Eles pedem que ele leve um cadáver falante para poder ter seu descanso eterno em um túmulo cristão, tendo que visitar os cemitérios de três igrejas antes do sol nascer. A estória passa como um conto de fadas sombrio, simples, mas muito bem feito. Apesar de toda a ideia ser bem sinistra, Mignola escreve de forma muito bem-humorada, havendo passagens realmente engraçadas do anti-herói discutindo com o cadáver falante. É muito bem equilibrado.




                        


O Despertar do Demônio


"Sim, eu soube, naquele momento, que as máquinas daqui estavam despertando, fazendo vocês viverem de novo. Bem-vindos ao final do século vinte."
"O começo do fim do mundo."

Os nazistas estão de volta. Era uma questão de tempo... A trama aqui retoma onde havia parado em "Sementes da Destruição", com Rasputin tentando retomar o seu plano do final da Segunda Guerra de trazer o Apocalipse despertando o dragão Ogru Jahad, os sete que são um. "O Despertar do Demônio" é dividido em cinco partes que acabam passando uma impressão menos direta que as aventuras de duas ou apenas uma parte. Mignola aposta em uma narrativa que é mais curiosa e divertida de acompanhar pelas ilustrações e o senso de humor (mesmo dentro do visual invariavelmente gótico) do que por cenas surpreendentes. Há um tom repetitivo na quantidade de vezes que você vê o Hellboy caindo de pisos fracos, alçapões ou torres se socando com algum inimigo, mas nada que chegue a condenar a diversão.


Há vários momentos de flashbacks de origem que servem pra explicar o passado e os objetivos dos vários personagens secundários envolvidos. Há tanto os vilões antigos, quanto alguns novos que surgiram para ajudá-los, como o vampiro Giurescu, sua amada Hecate e a bruxa Baba Yaga, que se torna mais importante no futuro. Não só os inimigos, retornam também os colegas do detetive paranormal: Elizabeth, Abraham e Kate, que têm influência na investigação. Correndo o risco de ser parecido demais com "Sementes da Destruição", "O Despertar do Demônio" também termina com um final aberto, deixando a previsão de que a luta do trágico herói contra seu destino está apenas começando.




                    


Gigante Infernal (Almost Colossus)


"Irmão você julga os humanos melhores do que nós, eles não são, acredite. Nós dois somos o triunfo da ciência sobre a natureza. A humanidade é como gado para nós."


A agente com poderes pirotécnicos contidos, Elizabeth Sherman, se encontra em um estado de quase morte após os eventos passados na última estória. Enquanto o tempo da moça diminui, Hellboy e Kate vão investigar um mosteiro abandonado onde o homúnculo misterioso que estava desacordado no castelo do Giurescu descobre sua origem por meio de outro personagem que é o vilão da estória. Os homúnculos apresentam um drama meio chocante e incômodo. Lembra Frankenstein, de Mary Shelley, misturando ficção científica com tragédia existencial, alguns momentos surpreendem. É dividido em duas partes e o resultado é o "Gigante Infernal" como uma das estórias mais curiosas e divertidas dessa primeira leva de análises.




                      


Especial de Natal


"Mais e mais ela vagava sozinha à noite pelo cemitério... E há pedras naquele lugar, mais velhas do que qualquer túmulo cristão..."

Em 1989, Hellboy tem um caso para resolver na véspera de Natal na Inglaterra. Uma senhora moribunda e solitária lhe pede um favor que o leva a uma desventura fantasmagórica. Não há tanto clima de Natal, só se passa na mesma época. "Um Natal Subterrâneo" é uma aventura característica do personagem. Na mesma edição vieram especiais de outras publicações que a Dark Horse tinha na época.




                        

A Caixa do Mal (Box Full of Evil)



"De hoje em diante, eu e meu esposo pertenceremos à Satanás."
"Estou certo de que ele cuidará bem de vocês."

Hellboy e seu colega Abraham parecem estar envolvidos em mais um caso paranormal recorrente, mas ele se revela armadilha de um outro demônio que tem interesses no posto apocalíptico do anti-herói. Hellboy entra em um difícil combate contra um forte inimigo e precisa reafirmar sua identidade perante as entidades infernais que tentam convencê-lo a aceitar um destino inevitavelmente catastrófico.

A tira mais genial da carreira de Mignola


                            


O Verme Conquistador


"Hellboy, não ser humano não significa ser menos que isso. Lembre-se disso. Lembre-se de mim..."

Como já comentei na introdução, Mignola faz muitas homenagens e referências nos seus trabalhos com o demônio detetive. Em "O Verme Conquistador" essas homenagens são altamente expressivas! O roteiro faz constante paralelo com "Ligeia" de Edgar Allan Poe e introduz o personagem Lagosta Johnson, que apresentado como um herói dos tempos da Segunda Guerra homenageia heróis antigos da ficção, como Doc Savage e O Sombra, dos quais M. Mignola era grande fã. Herman Von Klempt é o último nazista ocultista psicopata com fetiche pelo fim do mundo que está tentando despertar o dragão Ogru Jahad. Como em "O Despertar do Demônio", há deja vus com outras estórias, não só à "Sementes da Destruição", mas ao "Gigante Infernal" também. Roger e Lagosta Johnson são coadjuvantes divertidos de acompanhar na aventura.


"O Verme Conquistador" inegavelmente fecha um ciclo de aventuras do personagem, por razões que seriam spoilers se eu explicasse. Mas por ser o fim de um ciclo, ele foi escolhido também como última estória a ser analisada na Parte 1 da "Coleção Hellboy". Continuamos na próxima, espero que tenha gostado!

                       

Minuto Mignola - Contos de Deuses Peludos


"Disseram que eu estava louco, Milton. Faz tempo. Fizeram maldades comigo. Mas eu não sou louco..."

Espero que o nome não tenha ficado ridículo demais, haha. Mas pensei em aproveitar que estamos relembrando toda a série do Hellboy para no final de cada post analisar outro trabalho do seu principal criador, Mike Mignola. Aqui temos uma curta narrativa protagonizada pelo Dr. Woodrue, um dos principais vilões do Monstro do Pântano. Se passa em um ponto que o vilão já estava pirado e vai se encontrar com o Parlamento das Árvores. Apesar de simples é super bacana, o texto do Neil Gaiman (sim, aquele. O Lorde das Trevas. Mestre do Plano Astral) é infalível tanto quanto a arte do Mignola, há uma boa influência dos dois. Pode ser encontrado na coletânea "Dias da Meia-Noite".

                     


Sequências:

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